O antigo Presidente da República Mário Soares considerou hoje «extraordinária» a participação dos portugueses no desfile para assinalar o 25 de Abril, apesar de o Governo «ser contra» a revolução, criticando também o atual chefe de Estado.

Há 40 anos, os «militares de Abril ganharam a revolução porque o povo todo veio no 25 de Abril manifestar-se como se manifestou hoje na rua», defendeu, numa conferência sobre «O 25 de Abril visto de fora», promovida em Lisboa pela Fundação Mário Soares.

«Isso é que é extraordinário, é ver hoje, tantos anos depois, 40 anos depois, uma reação, não é só em Lisboa, é em todo o país, brutalmente a favor do 25 de Abril, quando todos sabem que o atual Governo é contra o 25 de Abril», sublinhou, recebendo fortes aplausos da plateia, que encheu o auditório do Museu do Oriente.

Mário Soares estendeu depois as críticas ao Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva: «Eu lamento dizer isto, mas a verdade é que o Presidente da República Portuguesa nunca foi capaz de usar um cravo», disse, motivando novamente aplausos, mas também apupos, pela referência ao nome do atual chefe de Estado.

Sobre a revolução dos cravos, Mário Soares salientou que «tudo se deve aos militares de Abril, eles fizeram isto sozinhos, porque não podiam mais suportar as guerras coloniais, em que morriam como tordos, eles e os outros».

Os militares, que «queriam a paz», acrescentou, «libertaram os presos políticos todos, acabaram com a censura, liquidaram a PIDE», causando uma «transformação que entusiasmou o país inteiro».

Mário Soares recordou que viajou pela Europa, após o 25 de Abril, para falar com responsáveis políticos, a pedido do então Presidente, António de Spínola, que «estava aflito, porque não tinha reconhecimento de ninguém».

«Toda a gente aceitou com alegria e euforia a revolução, em toda a Europa», disse o ex-Presidente, acrescentando que «a Europa, a América e mesmo a União Soviética perceberam que esta era uma revolução progressista e que os militares que a fizeram não quiseram o poder e deram-no aos partidos políticos».

Sobre o pós-25 de Abril, Soares relatou, na sua intervenção, alguns episódios, nomeadamente que, em Espanha, o general Franco travou a intenção dos marines norte-americanos de entrar em Portugal através de Espanha para impedir que os comunistas «dessem cabo da situação».

«O Franco era galego e os galegos são uma coisa especial relativamente a Portugal e rejeitou», porque tinha «uma grande consideração por Portugal e disse que isso é com os portugueses», descreveu.

Por outro lado, relatou, a União Soviética iniciava então negociações com os Estados Unidos para acabar com a Guerra Fria e «eles não queriam que os comunistas portugueses tomassem conta do país».

«É importante que se diga que a União Soviética não queria isso. Álvaro Cunhal era marxista, mas era sobretudo leninista e os soviéticos na altura já não eram leninistas. Não queriam que houvesse sarilhos. Houve alguns, mas foram vencidos», disse.

Questionado pelos jornalistas no final da sessão, disse não ter ouvido o discurso que Cavaco Silva proferiu no parlamento.

A conferência, em que intervieram também o ex-Presidente brasileiro Lula da Silva e o jornalista francês Dominique Pouchin, terminou ao som de «Grândola, Vila Morena», canção de José Afonso que serviu de senha ao movimento dos Capitães de Abril, e do hino nacional.

Na plateia, encontravam-se os antigos primeiro-ministros José Sócrates e Francisco Pinto Balsemão, o ex-presidente da Assembleia da República António Almeida Santos, o presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, o histórico socialista Manuel Alegre, o antigo líder da CGTP Manuel Carvalho da Silva, a mulher do prémio Nobel da Literatura José Saramago, Pilar del Rio, o pensador Eduardo Lourenço, e vários socialistas, como Álvaro Beleza, Vera Jardim, Gabriela Canavilhas, Vítor Ramalho, Inês de Medeiros, entre outros.