Sem cravo ao peito, mas com um discurso de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu, na casa da Democracia, que "faz sentido manter viva esta tradição, hoje mais do que nunca", de comemorar a data, invocando com assertividade o que ela representa. Hoje, numa altura em que os extremismos e os populismos são cada vez menos surdos no mundo e na Europa, com a extrema-direita a ir à segunda volta das eleições presidenciais francesas.

Ao Governo deixou um aviso, embora até tenha, logo no início, citado os seus antigos alunos para dar a entender que não o faria. Perguntavam-lhe quando era professor se fazia sentido uma cerimónia "aparentemente de mera rotina, num claustro fechado dividida entre reiterar a devida gratidão aos militares e repetir os argumentos do confronto político, avisos ou mesmo ultimatos presidenciais".

Marcelo não tem dúvidas de que faz sentido. Nos cerca de 20 minutos de discurso, já ia a mais de metade quando começou a ter falhas na voz, mas a mensagem passou clara como água:

Portugal não é perfeito. Os próximos anos terão de ser de maior riqueza e distribuição. O Governo e seus apoiantes e as oposições que legitimamente aspiram a voltar a governar, estarão por certo atentos. Tal como têm sido essenciais uns e outros neste ano e meio ao garantirem a virtuosa contabilização entre a indispensável estabilidade e o confronto político".

Cá estão os elogios, mas acompanhados de pedidos em jeito de aviso. 

O discurso, no geral, esteve muito centrado naquilo que Portugal alcançou e soube honrar depois do 25 de Abril, por contraste a outros países que estão com a balança pouco equilibrada, dando espaço a populismos. "Para sermos justos temos de admitir que temos uma pátria em paz, com apreciável segurança, sem racismos nem xenofobias de tomo, aceitando diferenças religiosas e culturais como poucos, com um poder local incansável e sistema político flexível e, nessa medida, mesmo [a precisar] de reformas, mais sustentável do que muitos outros nossos parceiros europeus".

"Temos resistido à nova vaga populista"

Sem referir nomes de países, de partidos ou de pessoas, o Presidente da República passou a mensagem, no Parlamento, na sessão solene comemorativa do 25 de Abril de 1974, ao dizer que os portugueses "sedimentam a democracia" e fazem-no a pensar na pátria.

Patriotas, digo bem, fervolhosamente orgulhosos da sua nação. Há duas maneiras muito diferentes de se amar a nação: uma, a que infelizmente vai grassando noutras nacionalidades é de ser nacionalista contra o mundo, rejeitando, excluindo; Outra, a nossa, na base da nossa expansão para oceanos e continentes, com todas as limitações e comunidades, é amar nação de coração aberto e alma universal".

Um nacionalismo "patriótico e universal e não um nacionalismo egocêntrico" fazem Marcelo orgulhar-se e querer que os portugueses se orgulhem. Eles, que dão cara e corpo a "três realidades indesmentíveis":

É dos portugueses a vitória que fomos tendo nos últimos anos nas finanças, economia e sociedade;: segundo, o papel decisivo de criar um futuro melhor, terceiro, portugueses ao sedimentar democracia fazem-no a pensar na pátria".

É por isso que, sublinhou o Presidente, "temos resistido à nova vaga dita populista que percorre esse mundo fora". "Com quase nove séculos de história não trocamos o certo pelo incerto, não sacrificamos a  democracia, ainda que imperfeita, seduzidos por cantos de sereia de amanhãs sorridentes em que do caos nascerá o paraíso".

Várias vezes aplaudido, o chefe de Estado arrancou o primeiro aplauso quando disse que os portugueses "nunca desistem" do que andam a construir há mais de 40 anos.

Se há heróis da nossa democracia para além daqueles que a prepararam, esses heróis são os portugueses. Eles a converteram de projeto em vida, construindo a cada momento, pelo voto, liberdade de opinião e crítica, movimentos políticos, ou fazendo percurso mais solitário fora das estruturas representativas, sem se desinteressarem na causa pública. Constroem democracia nas escolas, sindicatos, voluntariado, IPSS, igrejas, nunca deixando de omitir ou esvaziar intoleravelmente direitos económicos, sociais e culturais"

Por isso é que, na ótica do presidente, "faz sentido manter viva esta tradição hoje mais do que nunca". "Para mostrar que não nos esquecemos da nossa História – bem ajam destemidos e corajosos - invocar os que já nos deixaram como Mário Soares. Preferimos a democraia, apesar de injusta e imperfeita". 

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Neste tempo dos "chamados populismos antitradicionais e tropismos antissistémicos orgulhamo-nos" de um sistema de partidos que "é dos mais estáveis da Europa não deixando espaço" a outros extremistas.

Graças ao 25 de Abril temos entre nós caminhos suficientemente opostos e, portanto, alternativos, embora todos eles crentes na democracia constitucional para nos sentirmos dispensados de aventuras sem regresso. Em suma, temos muito orgulho na nossa história, no nosso patriotismo aberto ao universo, na nossa capacidade de nos reinventarmos em democracia, mantendo-nos fiéis à nossa língua, às nossas raízes, à nossa maneira de ser – plataforma entre culturas, civilizações, continentes e oceanos. Numa palavra, nós orgulhamo-nos de Portugal".

Foi assim que terminou o discurso, recebendo um longo aplauso e ovações de pé, seguido do hino nacional, pela segunda vez tocado e primeira vez cantado na Assembleia da República, decorada com os cravos de Abril. 

"O Presidente tem tido um papel decisivo"

Lusa

Antes de Marcelo, discursou o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, que elogiou a primeira figura de Estado ao seu lado direito.

O Presidente da República tem tido aqui um papel decisivo na recuperação da confiança nas instituições, magistratura de proximidade, leal, lúcida e afetuosa e permanente respeito pela Constituição".

Ferro Rodrigues refere-se ao "novo tempo político", que assume "diferente", sem esconder que se orgulha da nova arquitetura parlamentar que o seu Partido Socialista ajudou a conquistar. "No Parlamento não há deputados dispensáveis ou partidos excluídos das funções de governo. Todos contam, seja na oposição ou no apoio ao Governo".

Porém, deixou também o aviso de que é preciso "ouvir as pessoas" e que há ainda distância relativamente à política e aos políticos. "É preciso pensar seriamente em novas soluções em aumentar influência política, governo ouvir e refletir, mas também dar o exemplo".

Congratulou-se com os resultados do grupo de trabalho para um Parlamento mais digital, que ajudou a criar há um ano: desmaterialização do processo legislativo, renovação do site, mecanismos que permitam maior interação como a plataforma para submissão de petições  e a bolsa de perguntas e requerimentos.

Tal como Marcelo Rebelo de Sousa enfatizou os desafios estratégicos de Portugal e da Europa que o crescimento do nacionalismo em França, do racismo e do medo da diferença vêm intensificar.

Não é novo populismo, é velha extrema direita autoritária, nacionalista e xenófoba. Há quem fale de fadiga democrática e desencanto europeu, mas recordemos chave e palavras de grande europeísta, François Mitterrand: o nacionalismo é a guerra. Temos de combater o terrorismo (...) Esperemos que a derrota da extrema-direita se confirme. Estamos perante o maior desafio à estabilidade da Europa desde o fim da guerra fria".

Deixou o conselho de todos os políticos se manterem "vigilantes" nas famílias políticas europeias que integram. "Não damos, mas também não recebemos lições de ninguém. Somos dos raros países europeus sem ameaças da extrema-direita", atirou, recebendo novos aplausos da assistência.

Ferro Rodrigues lembrou Salgueiro Maia, Zeca Afonso e o "querido Mário Soares", que morreu este ano, e era "assumidamente laico, republicano e socialista, mas sempre fez da tolerância a sua bandeira, luta pela democracia, descolonização e Europa". Na memória de Abril, a saudade portuguesa.