O presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Sobrinho Simões, disse, neste sábado, que os portugueses são um povo com características genético culturais “sui generis”.

Não estou a sugerir que há genes portugueses, não há, o que os portugueses têm é uma mistura notável de genes com as mais variadas origens, se há algo único, ou quase único em nós, é essa mistura genética”, afirmou durante a sua intervenção na cerimónia comemorativa do 10 de Junho, no Porto.

Segundo o patologista e investigador, pelas leis da genética populacional os portugueses deveriam ser “mais homogéneos e mais monótonos” em termos genéticos que os outros povos europeus, mas não são.

Pelo contrário, o povo português é de uma “extraordinária diversidade genética” porque incorporou, ao longo de séculos, judeus e berberes vindos de Espanha e do Norte de África, porque se misturou com árabes, porque teve escravatura de povos da África subsariana no país e nas colónias com uma expressão e durante centenas de anos.

E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, filhas.”

E, por esse motivo, se compreende que a população portuguesa tenha grandes percentagens de diversas linhagens genéticas, sobretudo de origem materna, afiançou, sublinhando que há diferenças regionais, mas o que impressiona é a consistência com que tem “muito mais” mistura de genes do que os seus vizinhos.

O ponto que estou a procurar salientar é que a incorporação de genes foi acompanhada pela incorporação das respetivas culturas, criando uma sociedade de gentes muito variadas, tolerante em termos religiosos, avessa aos extremismos pseudo-identitários que irrompem um pouco por todo o lado.”

Na opinião do fundador do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IPATIMUP), a sociedade portuguesa deveria entender, como poucas, o problema dos refugiados.

Deveríamos ser capazes de integrar gentes que se veem obrigadas a fugir de casa, comportando-se como uma comunidade inclusiva e solidária, uma comunidade que percebe o valor sociocultural, económico e até demográfico da integração dos migrantes. Somos uma das sociedades com menos filhos do mundo.”

Sobrinho Simões acentuou que esta variedade genético cultural encontrou um terreno propício para o seu desenvolvimento nos montes e vales de grande parte do território português, onde coexistem elementos mediterrânicos e atlânticos.

Tudo isto, mais a localização periférica, a história, a geografia, o clima e a religião criou uma sociedade de “elevadíssimo contexto”, caracterizada “muito mais” pela importância dos laços de sangue do que de propriedade, frisando que são todos parentes uns dos outros.

Continuamos, infelizmente, demasiado individualistas e ainda não somos uma sociedade de contrato, lá chegaremos, espero.”

Sobrinho Simões deixou ainda uma nota de saudade pelo desaparecimento este ano de “personalidades ímpares”, entre os quais Mário Soares, Daniel Serrão, Miguel Veiga e João Lobo Antunes que apelidou de “portugueses de eleição”.

Apostar nas pessoas

Sobrinho Simões defendeu, também, que Portugal precisa de apostar nas pessoas e associar essa aposta à centralidade do trabalho e à sua dignificação.

E, temos de ser exemplares, de cima para baixo, na organização social e na seleção das lideranças, o privilégio tem de ser acompanhado de responsabilidade"

Para o cientista, é necessário vencer a “fragmentação do minifúndio” através de políticas que reforcem as instituições.

Portugal precisa, cada vez mais, de instituições fortes, eu penso que as Forças Armadas e a Igreja são duas instituições fortíssimas e nós precisamos de mais instituições que criem oportunidades, recompensem o mérito e potenciem a capacidade do saber fazer.”

Sobrinho Simões lembrou, ainda, a necessidade de continuar a apostar na educação a todos os níveis, lembrando um provérbio chinês: 'quem quer ter colheitas no ano seguinte, semeia; quem quer resultados a dez anos, planta; mas aqueles que apostam mesmo no futuro, a cem ou mil anos, o que fazem é ensinar, educar, formar´.

Graças a nós e às nossas circunstâncias, temos todos os ingredientes, dos genéticos e ambientais aos socioculturais e tecnológicos para aproveitar, pela positiva, os tempos difíceis que se vivem na Europa e o mundo. Os nossos netos não nos perdoarão se desperdiçarmos a oportunidade.”