Manuela Ferreira Leite considera que se há algum vencedor do braço-de-ferro entre o Governo e Bruxelas esse é António Costa. A comentadora da TVI24 disse, esta quinta-feira, no programa "Política Mesmo" que o Executivo português "deve ter querido mesmo negociar" com a Comissão Europeia, não aceitando ser apenas "um menino muito bem comportado". Ferreira Leite concorda com o aumento de impostos indiretos, mas está contra a redução do IVA na restauração.

"O governo português deve ter querido mesmo negociar com Bruxelas, não quis dar a ideia de que 'estava aqui isto e agora é o que consigo fazer e Bruxelas aceita logo portanto fui um menino muito bem comportado'."

Para a antiga ministra das Finanças, o orçamento tem o cuidado de ter as contas equilibradas, dentro das regras europeias - algo que considera importante para manter a credibilidade externa - e, ao mesmo tempo, não abdicou das medidas que garantem ao Governo o apoio dos partidos mais à esquerda no Parlamento.

"Acho que em termos formais e políticos o governo português ganhou porque acaba por apresentar um orçamento que tem o cuidado de que as contas estejam equilibradas dentro dos critérios que estão a ser seguidos por Bruxelas e isso é bom para Portugal e para a sua credibilidade externa - que não se pense que não interessam nada as contas -, e ao mesmo tempo não tendo abdicado das medidas que lhe garantiam o apoio dos partidos que o apoiam na Assembleia, garantindo a aprovação do orçamento."

Manuela Ferreira Leite sublinhou que concorda com o aumento dos impostos indiretos porque essa medida permite dar uma escolha aos portugueses.

"Se aumentam o IRS nem posso discutir, já sei que no final do mês o meu ordenado tem um corte que eu não posso recuperar. Recebo menos do que aquilo que estava a receber e quando chegar ao fim do ano vou ter que pagar um montante ao qual não posso fugir. Perco rendimento independentemente da minha vontade. Quando é um imposto indireto eu posso fugir. É não fazer essa despesa."

Questionada pela carga sobre a banca, a comentadora é perentória: "E os cidadãos não estão também numa situação tão frágil? Não levaram com redução de vencimentos e com redução de reformas e aumentos de IRS? Ainda está tudo vivo e ninguém morreu. Não posso ficar a chorar a banca."

Não concorda, no entanto, com a redução do IVA na restauração. Ferreira Leite sublinhou que a medida não vai reabrir as empresas que fecharam e recuperar os postos de trabalho destruídos após o aumento do imposto.

"Não tenho nenhuma dúvida que o aumento do IVA para 23% na restauração provocou fechos, encerramentos de empresas às centenas e milhares de desempregados têm origem nessa medida.Mas areversão não vai resolver o assunto. Isto não vai reabrir as empresas que fecharam nem vai criar postos de trabalho que acabaram."

A apresentação da candidatura de Passos Coelho à liderança do PSD foi outro dos assuntos abordados. A comentadora ficou satisfeita com o slogan do ex-primeiro-ministro - "Social-democracia, sempre" -, mas avisou que isso não basta e é preciso recentrar o partido.

"Estou muito contente porque só o slogan pressupõe a ideia de que há o reconhecimento de que é importante reconhecer-se a social-democracia. [...] É isso que esta a anunciar [recentrar o partido] e é essa perceção contrária que as pessoas tinham que ele vai ter que reverter."