No dia em que os britânicos decidiram, num referendo histórico, se ficam ou se saem da União Europeia, Paulo Portas alertou que a saída do Reino Unido será “o princípio do fim” da Europa tal como a conhecemos. No “Jornal das 8” da TVI, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-vice-primeiro-ministro afirmou que o referendo foi um erro de David Cameron, porque surgiu numa altura em que a Europa sofre um clima de instabilidade política e também económica.

“Eu pessoalmente acho que, se o Brexit ganhar, é o princípio do fim da União Europeia tal qual nós a conhecemos. E a razão para eu dizer isto é muito simples: primeiro, porque a Europa sem o Reino Unido fica sem uma das suas potências económicas estratégicas que é fundamental”, começou por dizer o também ex-líder do CDS-PP.

Quer saia, quer fique, a decisão do Reino Unido vai afetar toda Europa, mas, acima de tudo, defendeu Paulo Portas, a vitória do Brexit encerra outro cenário mais perigoso: estará criado o precedente democrático de que através de um referendo é possível o direito de cessação. Ou seja, sair da União Europeia.

“Vai acontecer uma coisa que eu considero um dos aspetos mais perigosos deste referendo: é que vai abrir-se a ‘Caixa de Pandora’ das nações sem Estado. Se amanhã soubermos que o Reino Unido votou para sair da Europa, o Reino Unido é complexo, isso quererá dizer de certeza o seguinte: que a Inglaterra votou contra a Europa, que a Escócia votou a favor da Europa. E a Escócia vai dizer uma coisa muito simples: ‘Eu quero ficar na Europa e para ficar na Europa eu tenho de sair do Reino Unido’”, advertiu o ex-vice-primeiro-ministro.

Aberta a Caixa de Pandora, a Europa não terá condições para superar o adeus dos ingleses. O Reino Unido é a segunda maior economia da União Europeia (a seguir à Alemanha), é também em muitos setores a economia mais competitiva da Europa, sobretudo nos serviços, e tem uma relevância estratégica muito significativa, aliás como potência marítima, que significa 15% do PIB total da Europa.

“Se houver o brexit, uma das razões que me leva a dizer que é o princípio do fim (…) é que não há nenhuma liderança no continente [europeu] à parte do Reino Unido capaz de dizer amanhã: ‘ok, os ingleses votaram contra, temos pena, mas nós vamos avançar para isto, para isto e para isto. E nós vamos fazer da Europa um projeto muito mais credível e muito mais confiável”, sublinhou Paulo Portas.

Realçando que o que quer que venha a acontecer é muito relevante do ponto de vista da União Europeia e terá consequências também a nível global, o ex-vice-primeiro-ministro deixou uma mensagem para as autoridades portuguesas.

“Atenção que, economicamente, para Portugal, o Reino Unido é relevante”, avisou Paulo Portas.

O ex-ministro e ex-líder do CDS-PP explicou que o Reino Unido é o quarto cliente de Portugal (logo a seguir a Espanha, Alemanha e França) e superou Angola. Portugal exporta milhares de milhões de euros para o Reino Unido todos os anos e o Reino Unido é o maior país emissor de turistas para Portugal (43% dos turistas do Algarve são ingleses).

“Eu acho que as autoridades portuguesas devem ser claras no princípio de que evidentemente é da nossa conveniência que o Reino Unido fique na União Europeia, mas acho que devem ser cuidadosas quanto a julgamentos sobre o comportamento dos eleitores, porque há muitos turistas que vêm para Portugal que são do Remain e outros que são do Brexit e as exportações, por exemplo, do vinho do Porto, que nós fazemos, são bebidas por gente que é do Remain e por quem é do Brexit. Respeitemos a soberania dos britânicos”, aconselhou.