Paulo Núncio, antes de ser secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, registou dezenas de empresas na Zona Franca da Madeira e trabalhou num escritório que transferiu milhões para um offshore. No Governo, supervisionou a matéria e agora está arrependido de não ter publicado os dados relativos às transferências de muitos milhões de euros para paraísos fiscais. Ninguém sabe se houve crime fiscal nem a origem de boa parte desse dinheiro.

O Parlamento está num alvoroço e a Geringonça apontou ao homem com redobrada indignação. Aquele hemiciclo, que há décadas é um viveiro de camaleões, que mudam de  cor e de atividade consoante os interesses particulares e partidários, ainda tem a capacidade de se indignar com estas coisas! Bem hajam por isso.

Ficamos todos mais tranquilos. Quando boa parte do país questiona a qualidade dos seus eleitos vemos  que indignação é coisa que não falta à elite que se acomoda nas 230 cadeiras do hemiciclo. E é  indignação convincente. 

Indignados e sem memória. Quase todos eles. Esquecidos de tanta incompatibilidade moral e de tantos interesses em conflito. Do que fizeram e fazem ex-secretários e Estado e ex-ministros. Deputados esquecidos da verdade da velha máxima: “a melhor profissão é ser ex-ministro”. Dito que a história confirma sempre que um executivo cessa funções.

Os últimos dias têm sido de tiro ao Núncio. Um alvo bem escolhido. O homem pôs-se a jeito.

Há duas semanas era a vez das direções dos PSD e CDS escolherem o alvo. Obedientes, e apesar do divórcio crescente, as tropas dos dois partidos disparam em cargas simultâneas  sobre Mário Centeno. Bem escolhido. A novela da CGD foi (é) um episódio triste para qualquer ministro das Finanças.

No intervalo, a Geringonça atirou mais chumbo sobre Carlos Costa.

Indignados, todos eles atiram. E voltaram a atirar.

A maioria dos  deputados não passa disso. De atiradores de ocasião, com fraca pontaria e acantonados nas “portas” que lhes foram destinadas: sempre à espera de ordens, sempre prontos a disparar. Quando é a época das rolas recebem munição farta e apropriada  e atiram às rolas. Se for tordo, atiram ao tordo. E há sempre o tiro à galinha de água.

Atiram a quem lhes mandam. E, quando não lhes dizem qual é o alvo, atiram, basicamente, às pegas rabudas e aos saca-rabos. Em casos pontuais, ao pato trombeteiro.

Só uma minoria distingue as espécies, as armas e as munições. E escolhe a caça e sabe quando é conveniente mudar o alvo.