"Imagine uma sociedade em que as pessoas vão à mercearia e não têm dinheiro. Eles vão apanhar um susto nestes cinco dias, que vai influenciar a votação provavelmente"


O ex-ministro das Finanças Medina Carreira entende que se lançou "tamanha confusão" durante as negociações entre a Grécia e os credores, com comentários de políticos, não políticos e comunicação social, que desembocou na convocação de um referendo, falha de pagamento ao FMI - que devia acontecer esta terça-feira - e na consequente medida de controlo de capitais.

Isso vai pôr à prova os cidadãos helénicos, durante esta semana, e "provavelmente", como adverte, influenciar o resultado da consulta popular à proposta dos credores. O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, já apelou ao "não". O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, já avisou que o "oxi" seria o mesmo que votar a saída do euro, mas não é essa a pergunta que será feita no referendo.

No programa "Olhos nos Olhos", na TVI24, o economista explicou que o problema grego é parecido com o português, mas "mais grave": "O Estado começou a gastar muito mais do que o dinheiro que tinha".

"O Governo grego naturalmente quer que entre o máximo de dinheiro possível, para o mínimo sacrifício interno. Quem põe lá o dinheiro, que também são governos e democracia não quer por lá tanto dinheiro. O conflito de interesses é este", assinalou, acrescentando que "o resto são decorrências do conflito: se saem, se entram, se a moeda vale mais aqui ou ali, é uma confusão que ninguém se entende".

Para tomar partido de uma das partes, Medina Carreira aconselhou primeiro refletir sobre algumas perguntas:

"É razoável que depois de duas falências do Estado grego haja uma terceira falência, que é aquilo que se está a passar, em que se vai pôr muito mais dinheiro lá? Acham que o grupo dos credores indefinidamente vai lá por dinheiro ou não? Ou acham que eles podem exigir aos credores indefinidamente o dinheiro que querem?".


Recordando que mesmo quem defende a saída da zona euro da Grécia ou de qualquer outro país, como Portugal, reconhece que "o problema não é sair, são as consequências da saída e por isso é que toda a gente tem medo de sair".