Manuela Ferreira Leite diz que a polémica em torno das alterações à lei do financiamento dos partidos está a acentuar de uma forma preocupante a má imagem dos partidos políticos e dos deputados. A comentadora criticou, esta quinta-feira à noite, a posição "dúbia" do Bloco de Esquerda, que aprovou a lei, mas que agora discorda dela para "agradar à opinião pública", e desafiou o CDS-PP a cumprir à risca o voto contra o diploma e a devolver todo o dinheiro que recebeu de entidades particulares e também a restituir todo o IVA ao Estado.

As alterações à lei do financiamento dos partidos foram aprovadas no Parlamentohá uma semana, com os votos a favor de PSD, PS, BE, PCP e PEV e contra de CDS-PP e PAN, que discordaram do fim do limite para a angariação de fundos. O novo diploma põe fim ao limite de doações e permite que seja possível pedir reembolso de IVA de todas as despesas.

Esta quinta-feira à noite, no espaço semanal de comentário na TVI24, Manuela Ferreira Leite instou os centristas a serem coerentes.

O CDS votou contra. (…) Vão ter que ser coerentes e, portanto, não aplicar em nada a lei que votaram contra. Isto é, vão ter que devolver. Têm essa obrigação moral e ética, senão eu ficarei sempre a pensar que votaram contra para daí ganhar votos e não porque sejam contra a ideia que lá está. E a lei não impõe nada a ninguém. (…) Se votaram contra têm a obrigação de não ficar com um cêntimo das entidades particulares. Têm a obrigação de não ficar com um cêntimo de IVA. Devem devolver tudo. Porque não se pode estar a ser incoerente com aquilo que se faz”, afirmou.

Sobre o Bloco de Esquerda, a ex-líder do PSD disse não entender como é que um partido que vota a favor da aprovação de uma lei, se mostra depois em desacordo com ela.

Quem vota a favor é porque está de acordo. Acho eu. Pelo menos no meu tempo era assim. O Bloco de Esquerda tem um pouco essa tentação, já no Orçamento foi mais ou menos o mesmo: sol na eira e chuva no nabal. Aprova, mas simultaneamente reprova. Reprova de boca e aprova no voto. O que é de uma incoerência, para não falar em oportunismo (…). Votaram a favor, mas estão em desacordo. E porquê? Porque a opinião pública está em desacordo. E, portanto, os próprios partidos políticos fazem o jogo da desaprovação do comportamento da classe política, mostrando-se que têm medo, que querem encobrir o que estão a fazer (…) Eu acho que as pessoas só encobrem o que estão a fazer se estão de consciência pesada e tentam que não se saiba”, defendeu.

Numa crítica à atitude dos deputados, Manuela Ferreira Leite admitiu que faz uma "leitura negativa" dos motivos que originaram a polémica em torno da aprovação das alterações à lei do financiamento dos partidos e revelou que a parte da discussão que verdadeiramente a preocupa e a que, no entender dela, verdadeiramente tem importância é a reação das pessoas em relação a um diploma que nem sequer conhecem.

Faço uma leitura negativa porque acho que só o facto de se falar em partidos políticos, de se falar em deputados e de pensar que poderá haver algum benefício para políticos faz com que haja uma reação quase epidémica por parte da população. E eu acho que toda a gente está consciente disso."

Manuela Ferreira Leite criticou o facto de os próprios deputados e os próprios partidos não assumirem aquilo que aprovaram. Para a comentadora, "só a falta de sensatez, o medo ou a falta de coragem" explica a atitude dos deputados no que toca a não assumir quais os aspetos que têm de ser alterados e discutidos na lei do financiamento.

Na opinião da antiga líder do PSD, o facto de as alterações à lei terem sido aprovadas, em segredo, como se quisessem “passar pelos pingos da chuva” e dias antes do Natal, mostra que os deputados "não têm coragem para enfrentar as pessoas relativamente aos problemas que se põem aos partidos".

"O facto de os próprios deputados e os próprios partidos não assumirem aquilo que aprovaram é absolutamente bizarro", disse Ferreira Leite, classificando a polémica como "séria, não pelo conteúdo, mas pelo significado", que é "gravíssimo".

São os próprios partidos políticos que assumem a alergia que as pessoas lhes têm e fazem o jogo da desaprovação do comportamento da classe política", criticou.

A descida do défice

No mesmo espaço de comentário, a antiga ministra das Finanças referiu-se ainda à descida do défice público para mais de metade até novembro.

Um valor que faz com que ninguém nos possa acusar de falta de rigor orçamental", sublinhou.

Resolvida a questão do controlo do défice, Manuela Ferreira Leite considerou que é tempo de discutir e negociar outros passos.

Talvez haja agora espaço para diminuir os impostos ou aumentar a despesa na saúde", sugeriu a antiga líder do PSD, embora admitindo ter algumas reservas.

"A coligação de esquerda nunca irá aceitar a redução dos impostos das empresas, que seria absolutamente vital. Nesse aspeto, é negativa a coligação. Se não avançam, significa então que vamos recuar", rematou.