Pediram-me para te dirigir umas palavras, para ser simples e espontânea, falando de ti e das lembranças que guardo do nosso breve encontro, na TVI.

Recordo o teu sorriso com que me olhaste quando me viste. Semanas antes, tinham-me dito que tinhas um sonho: gostavas de me conhecer pessoalmente, adorarias vir à TVI, observar o movimento de uma redação e fazer-me uma entrevista.

Sabes, Liliana, ao longo de uma carreira com mais de trinta anos, já concedi dezenas de entrevistas. Algumas foram mais especiais que outras, tiveram a ver com o momento, com as circunstâncias da minha vida profissional e pessoal. Acredita, no entanto, que a tua foi uma das que mais me marcou. Estudaste o meu percurso, sabias tudo a meu respeito - o meu lado público - e antecipavas o que eu poderia estar a sentir na altura em que nos conhecemos. Ambas vivíamos fases difíceis: tu enfrentavas um cancro; eu sangrava. Feridas irreparáveis.

Lembro-me que os teus pais, timidamente, acompanharam-te nesta visita surpresa a Lisboa. Uma grande amiga minha criou as condições para que o alojamento e a alimentação fosse do teu agrado e dos teus pais. E a verdade é que correu tudo pelo melhor.

Recebi-te na minha empresa com prazer. Estava feliz por saber que estava com o meu trabalho a contribuir para te proporcionar umas horas diferentes das tuas rotinas e realizar uma das tuas alegrias: conhecer uma jornalista de televisão, cujo percurso tinha chamado a tua atenção de menina pequena, mas grande na inteligência e na sensibilidade. Pouco tempo depois do nosso encontro, soube que tinhas partido. Uma outra existência estava à tua espera: livre dos males do mundo e da crueldade dos homens.