O preço da Liberdade é a eterna vigilância”

(Harry Warner, co-fundador da Warner Brothers)

 

“Alguém está a observá-lo”

(Mitch Daniels, antigo governador republicano do Indiana)

 

Trevor Noah, o sucessor de Jon Stewart no brilhante «Daily Show», costuma dizer - quando se refere ao ambiente político e mediático que caracterizou o período da eleição de Trump e esta primeira metade do mandato presidencial de Donald - que “a verdade passou a ser apenas uma opinião”.

Quase tudo o que temos vindo a saber, nos últimos dias, sobre o escândalo da Cambridge Analytica remete para esta ideia forte – simultaneamente poderosa e assustadora.

Quem acompanha de perto estes temas não estará muito surpreendido com as últimas revelações: há pelo menos dois anos, desde a reta final da campanha de Trump para a nomeação republicana, que era conhecida a intervenção da Cambridge Analytica.

Mas a dimensão do escândalo torna impossível ficar indiferente: mais de 55 milhões de utilizadores com os dados “roubados”, servindo de amostra poderosa para os alvos que a narrativa de Trump precisava de atingir.

“Segmentar/Apontar/Disparar”, com eficácia cirúrgica para os eleitores que, nos estados do Midwest, tinham perfil sociológico para votar democrata e acabaram por votar em Trump (o que quase nenhuma sondagem detetou antes de 8 de novembro de 2016).

Tendo em conta as diferenças registadas nos três estados que decidiram (Pensilvânia, 40 mil votos; Wisconsin 22 mil votos; Michigan 12 mil votos), não restam grandes dúvidas: a decisão do candidato Trump de recorrer aos serviços da Cambridge Analytica revelou-se um tiro no porta-aviões.

Entendamo-nos: é isto legítimo numa peleja política? No abstrato, claro que é.

Barack Obama, em 2008, foi o primeiro a fazê-lo com partícula eficácia (sem o Facebook e o Twitter, possivelmente Obama não teria sido Presidente dos EUA).

Em batalhas políticas recorre-se a quase tudo.

Nas corridas presidenciais americanas, então, vale mesmo tudo… exceto tirar olhos – e essa ferocidade não começou em 2016 com a eleição de Donald Trump, tem mais de dois séculos.

Se Hillary Clinton, que até ganhou a votação geral por diferença de três milhões de votos, não conseguiu montar uma estratégia política e eleitoral capaz de “blindar” aqueles três “must win states” onde era tão super favorita que nem se justificava fazer lá sondagens estaduais, a culpa não foi da Internet, do Facebook, do Mark Zuckerberg, muito menos da Cambridge Anlaytica.

Donald Trump ganhou a guerra eleitoral porque foi mais eficaz na obtenção do objetivo: ponto final.

Dito isto, não consigo deixar de abrir a boca de espanto ao ler e ouvir, nos últimos dias, jornalistas, comentadores e analistas respeitáveis (portugueses e alguns estrangeiros também) a colocarem em iguais patamares de avaliação e crítica aquilo que foi feito pelo Team Obama em 2008 e 2012 no plano digital e os métodos utilizados pela Cambridge Analytica (e por outros “bots” que terão sido ativados por agentes russos, como a Comissão Mueller já identificou e se prepara para deduzir acusação).

Que se saiba, as duas campanhas presidenciais vencedoras de Barack Obama não se puseram a disparar para milhões de pessoas “fake news” com infâmias sobre McCain ou Romney, muito menos terão recorrido aos serviços de uma potência rival dos EUA para obter uma eficácia ainda maior nas mentiras propagadas.

Ora, isso faz toda a diferença. Não perceber essa diferença crucial é não perceber nada.

A democracia é o governo da maioria, eleito livremente e sem diferenciação de género, estratos sociais ou habilitações literárias.

Certo.

Mas tem que encontrar formas de se defender da demagogia, da mentira e da calúnia propagada por milhões com a eficácia violenta da máquina multiplicadora da rede invisível. Usar o espaço global é um elemento crucial para a nova forma de comunicar com as massas – e só assim se chegam às várias dezenas de milhões de votos com que se ganham eleições presidenciais na América.

Fazer isso roubando dados e difundindo mentiras sob a capa de “verdades desmascaradas". A verdade, na era Trump, pode já estar numa fase «pós». Mas daí até estar sob a alçada de “mera opinião” vai um grande passo. Não pode deixar de haver esse passo a dar.

O caso Cambridge Analytica – que o procurador especial Robert Mueller pretende acoplar na sua mega-investigação à “Russia Collusion” – ameaça seriamente a integridade da principal democracia do mundo.

E não pode passar em claro.

Desvario na Casa Branca

O desvario na Casa Branca de Trump prossegue e todos os sinais recentes apontam para um preocupante agravamento.

Num espaço de três semanas, saíram o Conselheiro Económico Nacional (Gary Cohn), o Secretário de Estado (Rex Tillerson), o secretário de Estado-adjunto (Steve Goldstein) e o Conselheiro de Segurança Nacional (HR McMaster).

São cada vez menos os elementos de equilíbrio na já de si desequilibrada Administração Trump: para chefiar a diplomacia, o Presidente escolheu um falcão republicano que, enquanto congressista do Kansas, tudo fez para reverter no Congresso legislação aprovada na Administração Obama; para suceder a McMaster no posto de National Security Adviser, Trump não hesitou em chamar John Bolton, um dos “US officials” mais perturbadores dos anos de presidência George W. Bush e que tem como uma das frases favoritas “bomb Iran”.

Foram perdas de topo e mudanças para pior: Kudlow não tão bom como Cohn; Pompeo é muito mais agressivo e imprevisível que Tillerson; Bolton é muitíssimo mais preocupante do que McMaster.

A Presidência Trump, a caminhar para os 500 dias, parece ter entrado numa fase especialmente perigosa e ainda mais imprevisível.

No plano económico, e já sem Cohn para o travar, Trump avançou mesmo com a “guerra comercial”, iniciando as hostilidades contra os produtos chineses, num pacote de tarifas às importações da China num valor global de 60 mil milhões de dólares.

A Europa, para já, foi poupada, mas o clima malsão está instalado: quem pensar que de Pequim não virá retaliação forte ainda não se terá apercebido dos tempos sombrios que ainda vêm. Não pode acabar bem.

É no que dá quando, na Casa Branca, está alguém que não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

De McMaster para Bolton, mais um ‘downgrade’

A queda de McMaster é mais um episódio que confirma a viragem definitiva da Administração Trump para uma via radical e imprudente.

HR Master, o “general iconoclasta”, junta uma enorme experiência militar a um profundo conhecimento da história política dos Estados Unidos.

Dava racionalidade e credibilidade ao “inner circle” do Presidente. E foi determinante em evitar que esta presidência resvalasse em fase muito precoce, quando assumiu a sucessão do general Mike Flynn no posto de Conselheiro de Segurança Nacional, quando esta administração tinha apenas um mês.

O cargo é de uma importância extrema: é o National Securiy Advisor que, todas as manhãs, informa o Presidente dos temas mais urgentes e delicados em matéria de segurança nacional.

Tal como já tinha feito com Gary Cohn (Conselheiro Económico Nacional) e Rex Tillerson (Secretário de Estado), Donald Trump afasta um dos poucos elementos de equilíbrio que restavam no seu núcleo duro (sobram os generais Jim Mattis, no Pentágono, e John Kelly, "chief of staff", sendo este último o menos "confiável" dessa linha mais moderada).

McMaster, diga-se, endossou o Presidente em temas fundamentais nos últimos meses, mas não seria, tal como Tillerson, um particular entusiasta de uma denúncia americana do acordo nuclear iraniano.

E terá levantado reservas em relação ao encontro de Trump com Kim Jong-Un em maio. Mais preocupante ainda: Donald escolheu para novo Conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, que fora Embaixador dos EUA na ONU na Administração George W. Bush e se tem destacado como um dos “falcões” mais duros e agressivos da direita americana.

Teme-se o pior: Bolton tem advogado um endurecimento da posição americana em relação ao Irão e chegou mesmo a equacionar “ataques preventivos” em vez da via do diálogo com Teerão, por ter uma posição de princípio de total desconfiança em relação às intenções iranianas.

A presidência Trump entra assim numa fase, sobretudo ao nível de política externa, super preocupante.

Se a isto juntarmos a venda de armamento americano à Arábia Saudita (que a Administração Trump apresentou como integrada “no reforço da segurança nacional”), concluímos que Trump tem mesmo uma visão para o Médio Oriente que passa pelo agravamento da tensão com os iranianos e pela escolha da Arábia Saudita e Israel como aliados preferenciais.

Com Riade espera reforçar a “guerra por procuração” no Iémen, assumindo a posição saudita; com Israel, a Administração Trump tem escolhido uma via de aproximação com a Arábia Saudita, sob o pretexto do inimigo comum: o Irão.

A autorização de sobrevoo de espaço aéreo saudita de um avião da Air India que aterrou em Israel foi mais um sinal nesse sentido.

Tempos estranhos e perigosos, estes.