Sempre que temos a preparação de um Orçamento do Estado as primeiras páginas dos jornais e aberturas de noticiários televisão e rádio fazem lembrar as pré-épocas futebolísticas. Tal como nos meses de verão as manchetes dos desportivos mostram jogadores que vão chegar (e depois não chegam) e notícias “sopradas” para valorizar jogadores, também as semanas de orçamento são feitas de “fugas de informação” e de contrainformação alimentada pela normal luta política entre partidos. Este Orçamento do Estado de 2017 não foi novidade nessa lógica e tivemos notícias “sopradas” e “adivinhadas” sobre a sobretaxa do IRS, pensões, negociações com PCP e BE, impostos sobre bens não essenciais, salários mínimos, peso dos impostos para as empresas, incentivos fiscais nos transportes públicos, alívio da carga fiscal nos "recibos verdes", taxas sobre património imobiliário, suspensão de fundos comunitários, subsídio de Natal (duodécimos) e imposto sobre arrendamento local. Como descobrimos depois, no final desta semana, nem tudo o que reluz nas notícias sobre orçamentos é verdade, nem tudo aconteceu, nem tudo o que aconteceu foi notícia e, como sempre, para metade da Assembleia da República estará tudo pior em 2017 e para a outra metade tudo estará melhor. 

Enquanto se negociava em Lisboa, o Primeiro-Ministro visitou as Chinas (a continental e a das regiões especiais, como Macau) dando azo ao regresso das tradicionais interpretações sobre os ciclos históricos de origem da riqueza da economia portuguesa, agora centradas na ideia de que depois do ciclo Europeu (1986-2016) se está a construir o ciclo Sino-Europeu (2016-...). Entretanto, em Lisboa os taxistas desenvolviam uma ação de protesto que se adivinhava violenta em termos de confrontos físicos, mas que acabou por ter na violência simbólica das palavras na comunicação social a verdadeira dimensão violenta. Discorrer sobre a violação de virgens, sobre o que fazer a outros portugueses (que conduzam outros veículos que não táxis) não criou uma boa imagem e fez, certamente, o Presidente da República, que foi taxista durante a sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa, afastar-se de receber pessoalmente em Belém qualquer delegação da classe profissional com a qual partilhou breves momentos profissionais noutra vida.

A semana em termos de violência simbólica teve em Marcelo Rebelo de Sousa também um alvo, com a divulgação das imagens de condecoração do Rei de Marrocos utilizadas num vídeo do Estado Islâmico para apelar ao castigo dos líderes muçulmanos que aceitem proximidade para com os líderes ocidentais. Numa semana de vitória diplomática da eleição de António Guterres para o organismo que procura a paz no mundo, o episódio em si da condecoração não parece o mais pacífico. Pois, a escolha da Ordem de Sant’Iago da Espada coloca algumas questões sobre o apropriado de, numa visita a um país estrangeiro e com o qual se pretende aprofundar o relacionamento, condecorar o Rei de Marrocos com uma ordem honorífica com origem na expulsão dos muçulmanos de Portugal e associada à imagem militar do Santo na península ibérica enquanto “Santiago Mata Mouros”.

Infelizmente, a semana teve também um forte pendor de violência real, com a morte de um guarda da GNR e de um civil, fruto da atividade criminal, não de terroristas islamitas ou nacionalistas, mas de um cidadão português sem, aparentemente, motivações políticas. Toda a violência simbólica e física desta semana deveria fazer-nos pensar se Portugal é mesmo um país de brandos costumes, ou se é apenas uma questão de momento histórico num país em que apenas há duzentos anos atrás houve uma guerra civil atroz e devastadora.