O prémio Nobel de Economia em 2008, Paul Krugman, defende num artigo publicado esta terça-feira e a apresentar em Portugal no fim do mês, que o Banco Central Europeu deve abandonar a política de baixa inflação.

«Os argumentos para uma inflação mais alta são ainda mais forte do que os críticos têm defendido», escreveu o economista no artigo «Objetivos de Inflação Reconsiderados».

O texto foi publicado hoje na página da internet da Universidade de Princeton e será apresentado no dia 27 de Maio, em Sintra, no fórum do Banco Central Europeu, dedicado ao tema «Política Monetária num contexto financeiro em evolução».

«Durante os anos 90, muitos bancos centrais mundiais convergiram no objetivo de uma inflação de dois por cento. Porquê dois por cento em vez de 1 ou 3? O objetivo não foi alcançado através de um processo científico, mas pareceu fazer economicamente e politicamente sentido durante algum tempo», explica o especialista.

Krugman admite que «qualquer proposta para uma aumento do objetivo de inflação é recebido com ceticismo extremo pelos banqueiros centrais», mas refere que a crise financeira de 2008 forneceu dados que devem alterar essas percepções.

«Existem cada vez mais provas de que as economias que entram em recessão com uma inflação baixa podem facilmente ficar presas numa armadilha económica e política, um ciclo de auto-perpetuação entre economia fraca e inflação baixa», diz o norte-americano.

«Não sabemos quão frequentes são eventos como a crise do Euro e o seu seguimento, mas estes exemplos sugerem que, numa união monetária imperfeitamente integrada - sem integração fiscal e alta mobilidade laboral -, uma inflação moderada pode ser uma mecanismo de ajustamento crucial e que uma inflação baixa pode impor perdas significativas», acrescenta.

Autorizando-se a fazer «alguma especulação sobre a falta de vontade de muitos bancos centrais reverem este objetivo», Krugman diz que é uma técnica de desculpabilização destas instituições.

«Desde que os preços se mantenham estáveis, os responsáveis podem defender que a política monetária está a fazer o seu trabalho, que todos as outros dificuldades económicas devem ser resolvidas com reformas estruturais - isto é, por outros», diz o economista.

Krugman diz que essas reformas podem falhar e dá o exemplo da descida do custo do trabalho, como foi sugerido pela troika em Portugal.

«Com a exceção da Grécia, nenhum dos países devedores viu uma queda significativa nas compensações, apesar de taxas de desemprego extremamente altas. Mas não se pode culpar esta falta de ajustamento com rigidez estrutural: a Irlanda, que era elogiada pela sua flexibilidade antes da crise, tem sido tão resistente a cortes dos salários como Portugal e Espanha», explica.

Krugman conclui dizendo que «uma objetivo de inflação relativamente alta em tempos normais pode ser visto como uma forma de seguro crucial, uma forma de excluir a possibilidade de resultados muito maus».

O fórum do BCE em que Krugman participará realiza-se num hotel em Sintra entre 25 e 27 de maio e contará com cerca de 150 participantes.

Além do norte-americano, o BCE traz a Portugal Mario Draghi, Christine Lagarde e Durão Barroso.

O evento assemelha-se à conferência que todos os anos reúne responsáveis dos principais bancos centrais mundiais em Jackson Hole, no Estado norte-americano de Wyoming.