Bob Dylan está a braços com a justiça francesa. O músico norte-americano, visto como um forte apoiante do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA na década de 1960, está agora a ser processado por racismo. Representantes do Conselho de Croatas em França apresentaram uma queixa-crime contra Bob Dylan e contra a revista «Rolling Stone» devido a uma entrevista dada em 2012, onde Dylan fazia uma comparação entre croatas e nazis. Bob Dylan foi formalmente acusado esta terça-feira e vai ser julgado por injúria e incitamento ao ódio, noticia a AFP.

A polémica surgiu em outubro de 2012, numa entrevista que Dylan concedeu ao jornalista Mikal Gilmore da revista «Rolling Stone». Entre os vários assuntos abordados, a escravatura e o racismo foram temas e a «guerra fria», entre a Sérvia e a Croácia, serviu como exemplo numa das respostas a propósito da escravatura e da guerra da secessão nos Estados Unidos.

«Os negros sabem que alguns brancos não queriam desistir da escravatura e que, se estivessem à vontade, eles estariam ainda no tronco. Se você tiver Kux Klux Klan no sangue, os negros vão notar, mesmo nos dias de hoje. Tal como os judeus detetam o sangue nazi e os sérvios o sangue croata», afirmou.

Logo após a publicação da entrevista, algumas estações de rádio croatas baniram as canções de Bob Dylan da programação. O Conselho de Croatas em França apresentou queixa, nomeando o compositor e a publicação como «reles». «Não temos nada contra a revista Rolling Stone ou Bob Dylan como cantor. (Mas) não se pode comparar os crimes da guerra croata com todos os outros croatas», afirmou o secretário do conselho, Vlatko Maric.

Após a dissolução da Jugoslávia, Croácia e Sérvia envolveram-se num conflito sangrento entre 1991 e 1995, que causou cerca de 20 mil mortos. Já antes, durante a II Guerra Mundial, após a invasão pela Alemanha nazi, a Jugoslávia fora desmembrada. Nessa época, sob a tutela do fascista Ante Pavelic, centenas de milhares sérvios, judeus, ciganos e croatas não-alinhados ao regime pró-nazi foram exterminados em campos de concentração da Croácia.

Bob Dylan, neto de imigrantes judeus russos nos EUA, foi ouvido sobre o caso, e indiciado pela justiça francesa, por ocasião da ida a Paris, em meados de novembro, para dar alguns concertos e para ser condecorado com a ordem da Legião de Honra pela ministra da Cultura de França, Aurélie Filippetti.

«Você representa melhor do que ninguém, aos olhos da França, esta força subversiva da cultura que pode mudar as pessoas e o mundo», declarou Filippetti, entregando a condecoração de cavaleiro da Legião de Honra ao cantor norte-americano, de 72 anos.