«Para os Braços da Minha Mãe» é um dos temas do novo disco de Pedro Abrunhosa, e, apesar de não ser um dos singles oficiais, já começou a passar pelo ouvido de muitos portugueses. Primeiro, pelo dueto com Camané, e depois pelas palavras de uma canção que aborda o momento social e económico difícil que Portugal atravessa e que força muita gente a emigrar.

«Esta canção surgiu num momento duro do país, em que as pessoas têm de sacrificar o melhor que têm - o amor pelos seus, pela sua terra - para irem procurar uma vida melhor [no estrangeiro]. Porque aqui, claramente, nesta altura, está muito complicado», contou Pedro Abrunhosa ao tvi24.pt durante as gravações de um showcase especial que contou com a participação de Camané.

Foi exatamente a pensar na voz do fadista que Abrunhosa descobriu a peça-chave nesta canção, uma das últimas a serem completadas no final do disco.

«Quando eu acabei a letra e a música - que foi bastante rápido, em duas ou três horas - achei que a voz do Camané estava lá, estava oculta. Achei que a voz do Camané fazia parte daquele texto», recordou.

«A voz do Camané é uma voz com cicatrizes, é uma voz com rugosidades da vida, é uma voz comovente. E, portanto, quando o Camané chega e interpreta a música, eu acho que a coisa fica finalmente completa.»

O convite de Pedro Abrunhosa foi fácil de aceitar, admitiu Camané, uma vez que a empatia com a música e a letra deste «Para os Braços da Minha Mãe» foram quase imediatas.

«A canção é lindíssima e é uma canção que eu gostei imenso de cantar porque gosto imenso destas palavras e gosto imenso da melodia também. Foi muito bom», afirmou o fadista ao tvi24.pt.

No novo álbum, «Contramão», Pedro Abrunhosa volta a refletir sobre Portugal e o mundo em seu redor, e o músico portuense explicou que não conseguiria fazer canções de outra forma mais leve e desprendida da realidade.

«["Para os Braços da Minha Mãe"] fala de amor, fala da partida, da despedida, da dor, da ausência... Infelizmente, a dor é mais comum entre as pessoas do que a alegria. E, portanto, a canção não serve para nada a não ser para cumprir este papel de unificação. Mas também de não deixar esquecer que o país atravessa um gravíssimo momento», explicou.

«Daqui a uns anos, no futuro, ter passado por este momento, enquanto criador, e não ter refletido o momento na minha obra... seria porque eu estava a fazer variedades e não música.»

A letra de «Para os Braços da Minha Mãe»:

Cheguei ao fundo da estrada,

Duas léguas de nada,

Não sei que força me mantém.

É tão cinzenta a Alemanha

E a saudade tamanha,

E o verão nunca mais vem.

Quero ir para casa

Embarcar num golpe de asa,

Pisar a terra em brasa,

Que a noite já aí vem.

Quero voltar

Para os braços da minha mãe,

Quero voltar

Para os braços da minha mãe.

Trouxe um pouco de terra,

Cheira a pinheiro e a serra,

Voam pombas

No beiral.

Fiz vinte anos no chão,

Na noite de Amsterdão,

Comprei amor

Pelo jornal.

Quero ir para casa

Embarcar num golpe de asa,

Pisar a terra em brasa,

Que a noite já aí vem.

Quero voltar

Para os braços da minha mãe,

Quero voltar

Para os braços da minha mãe.

Vim em passo de bala,

Um diploma na mala,

Deixei o meu amor p'ra trás.

Faz tanto frio em Paris,

Sou já memória e raiz,

Ninguém sai donde tem Paz.

Quero ir para casa

Embarcar num golpe de asa,

Pisar a terra em brasa,

Que a noite já aí vem.

Quero voltar

Para os braços da minha mãe,

Quero voltar

Para os braços da minha mãe.