O músico Pedro Abrunhosa disse, em Macau, esta quinta-feira, que a maior preocupação dos portugueses «é a falta de esperança», numa palestra que dedicou à crise e à emigração, e durante a qual também interpretou algumas músicas ao piano, escreve a agência Lusa.

«A maior preocupação neste momento para os portugueses é a falta de esperança. E o discurso dos políticos não é um discurso otimista, não é um discurso esperançoso, é tudo menos um discurso poético. Poético não é de certeza, é um discurso tecnocrata, é um discurso hermético, às vezes até pernicioso, que repete uma mentira - a mentira da austeridade», afirmou.

Pedro Abrunhosa falava na palestra «Música e Arte: antídotos para a angústia social em tempos de números», no Instituto Politécnico de Macau, respondendo a um convite que o diretor do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa justificou com o facto de o autor de «Contramão» ser poeta, além de músico. «É sobretudo um poeta, um homem do seu tempo e do seu país», disse Carlos André.

No início da palestra, um aviso à plateia, essencialmente lusófona: «Não venho anunciar o fim da crise em Portugal, como muitos gostariam e eu próprio gostaria».

Palavras do músico seguidas das notas ao piano: «Voámos em contramão / E há de haver outro lugar / E palavras para dizer / Quando a terra abraça o mar / É como um filho a nascer». Um tema que dá nome ao seu mais recente álbum, e que foi distinguido este ano pela Sociedade Portuguesa de Autores.



Pedro Abrunhosa invocou o «Manifesto contra a Crise - Compromisso com a Ciência, a Cultura e as Artes», que subscreveu com mais de cem intelectuais e cientistas portugueses, e que foi apresentado no final de janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

«Vivemos uma situação profundíssima de crise, em que grandes valores ao nível da cultura, da ciência e da academia têm de abandonar o país para poderem trabalhar e viver com dignidade. Portugal tornou-se um país pobre - se já era pobre empobreceu -, e a realidade é a frustração generalizada de que não há uma pessoa ou uma força a quem possamos culpar, é uma sensação de impotência», afirmou.

Pedro Abrunhosa tocou também a música «Para os Braços da Minha Mãe», que fala da nova vaga de emigração.



Questionado sobre se já tinha pensado em sair de Portugal, como o fez há poucos dias o também cantor e compositor Fernando Tordo, Abrunhosa respondeu: «Não, nunca pensei. A questão do Fernando Tordo é um problema de mercado e da pequenez geográfica de um país culturalmente enorme».

Num contexto de crise, continuou Abrunhosa, «a música serve de paliativo social e válvula de escape» e também «serve para mudar o mundo».

«Saber que os portugueses choram comigo, mas também riem comigo é o que me faz continuar a escrever canções», acrescentou.

O músico dirigiu ainda algumas palavras sobre Macau: «Esta viagem foi muito benéfica. É uma aprendizagem constante. E retornar a Macau foi uma surpresa. Está muito diferente».

Pedro Abrunhosa é o vencedor da última edição do Prémio Pedro Osório, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores, com «Contramão», o seu sétimo álbum de originais.

O prémio foi instituído em homenagem ao compositor falecido em janeiro de 2012, tem o valor pecuniário de dois mil euros e vai ser entregue no próximo dia 26, em Lisboa.