O palco pintou-se de negro e o rock tomou contornos políticos. PJ Harvey trocou a guitarra pelo saxofone, trazendo a esta segunda noite do NOS Primavera Sound um espetáculo intenso e sombrio. Apenas se dirigiu ao público para apresentar a banda e soltar um tímido "obrigado" em português. E não foi preciso mais. A música falou por si e o público entendeu-a, num misto de fascínio e emoção.

O concerto começou com uma entrada em palco invulgar: todos vestidos de preto, PJ Harvey e os seus músicos - entre os quais John Parish e Mick Harvey - entraram em palco em marcha, como se de uma cerimónia militar se tratasse. E havia mesmo um discurso a fazer.

As canções que fazem parte do seu último álbum, "The Hope Six Demolition Project", inspirado nas viagens que fez ao Kosovo, ao Afeganistão e aos Estados Unidos, ditaram os momentos principais da sua atuação. E com temas como "The Ministry of Defense" ou "The Community of Hope" a britânica mostrou o que lhe parece interessar agora: a exploração do rock para lá da rebeldia e da sexualidade que a tornaram um ícone da década de 90.

O disco, lançado este ano, veio no seguimento de "Let England Shake", que também marcou o alinhamento do concerto, com temas como "The Words That Maketh Murder" ou a canção que dá nome ao álbum.

Com 46 anos, Polly Jean é agora uma mulher madura e as questões políticas e sociais ganharam relevo na sua música. Isso nota-se quer nas letras quer nas composições, agora cheias de instrumentos de percussão e de sopros. Por momentos, até parecia, que estávamos perante uma orquestra. 

De saxofone na mão e um vestido curto, mas de mangas compridas que esvoaçavam ao sabor do vento, PJ Harvey foi intensa: na voz, nos gestos, na forma como deu, em palco, uma força maior às canções produzidas em estúdio. 

Desengane-se porém quem pensa que PJ Harvey já não visita trabalhos mais antigos - aqueles que, afinal, projetaram a sua carreira. No Parque da Cidade do Porto, a cantora respondeu aos desejos dos fãs que já a seguem há muito tempo, apresentando "When Under Ether", "50 FT Queenie", "Down by the Water" e "To Bring You My Love". E no final deste último tema, o público até agradeceu - pelo menos do sítio onde estávamos.

Não houve interações com o público senão para apresentar os músicos e deixar um tímido "obrigado" em português. Não houve encore, nem palavras de despedida. Mas PJ Harvey abandonou o palco com a certeza de que tinha deixado os fãs a seus pés. Fascinados e comovidos. 

Um pôr-do-sol luminoso para celebrar o passado com Brian Wilson

Antes de PJ Harvey, subiu ao Palco NOS Brian Wilson, fundador dos Beach Boys, que também trouxe uma banda numerosa. Com ele, o Parque da Cidade do Porto assistiu a um momento de celebração em torno dos 50 anos desde a edição do álbum "Pet Sounds". Não era caso para menos: trata-se de um dos álbuns mais emblemáticos de sempre, que revolucionou a pop dos anos 60, entrando em terrenos até então (praticamente) desconhecidos.

Com 73 anos, Brian Wilson já está longe do domínio das suas faculdades vocais. Mas a verdade é que isso pouco importou a quem esteve ali, para o ver e ouvir. Porque o que aconteceu foi mais do que um mero concerto: foi um momento de festa, que uniu gerações a uma só voz.

Durante cerca de uma hora (um pouco mais), canções que fazem parte da História e que se tornaram símbolo de uma época encheram o recinto sob um pôr-do-sol muito luminoso. Temas como "Wouldn't it Ne nice", "God Only Knows" ou "I Know There's an Answear".

Houve ainda tempo para outras canções fora do universo "Pet Sounds" e que deixaram o público ao rubro como "Surfin' U.S.A" e "Good Vibrations".

Saltos, braços no ar e câmaras, muitas câmaras, para obter o registo de um dos músicos mais influentes dos anos 60. 

 

 

 

Pop celestial e eletrónica com problemas técnicos

Os concertos no Palco Nos foram encerrados com a eletrónica celestial dos Beach House. A esta altura, a moldura humana que se formou para ver PJ Harvey, já não estava tão composta. Ainda assim, a dupla conseguiu elevar os corações do público com as suas melodias dream pop. Os álbuns "Depression Cherry" e "Thank Your Lucky Stars" - ambos lançados no ano passado - foram o destaque do alinhamento.

No Palco Super Bock, os canadianos Destroyer levaram ao final da tarde, antes do concerto de Brian Wilson, indie rock com muitas influências do jazz. E um álbum em destaque: "Poison Season", lançado no ano passado.

Quem também passou pelo Palco Super Bock foram as Savages, com um concerto cheio de rock, noise e uma energia contagiante.

A eletrónica de Kiasmos também se fez ouvir por este palco, mas com problemas técnicos. Só à terceira tentativa é que o concerto arrancou, por fim. 

O NOS Primavera Sound termina este sábado com Air e Moderat como os grandes destaques do dia.