O músico de intervenção português Luís Cília escreveu uma carta de apoio aos 15 jovens angolanos detidos desde junho, e afirmou ser "pouco credível" que "possam fomentar qualquer 'golpe de Estado'".

"Só se for um golpe de Estado das mentalidades e isso é imprescindível em qualquer país que se orgulhe do seu passado de luta contra o colonialismo", afirma Luís Cília na carta, a que a agência Lusa teve acesso e que é subscrita também pelos músicos Sérgio Godinho e Manuel Freire.

Em declarações à agência Lusa, Luís Cília sublinhou que esta carta é "um grão de areia na indignação geral" sobre a detenção de 15 jovens, entre os quais o luso-angolano Henrique Luaty Beirão, formalmente acusados pelo Ministério Público angolano de atos preparatórios para uma rebelião e um atentado contra o Presidente angolano.

Luaty Beirão, ativista e músico, 33 anos, está em greve de fome há 29 dias, exigindo - como prevê a lei angolana para o crime em causa - aguardar julgamento em liberdade.

"É uma situação um bocado absurda resolver acusá-los de um golpe de Estado. Um golpe de Estado é feito com armas e canhões, com um exército. Onde está ele? Só se for um exército de ideias, e, como sabe, esse é altamente perigoso."


Luís Cília, nascido no Huambo em 1943, passou a adolescência em Angola e fez os estudos em Lisboa, até que nos anos 1960 se exilou em Paris. Foi aí que gravou, à guitarra, o disco "Portugal-Angola: Chants de Lutte", no qual denuncia sem censuras a guerra colonial e a criticar abertamente o envio de tropas para África.

Em 1973 gravou, também em França, "Contra a ideia de violência a violência da ideia", que, segundo o próprio, sintetiza o que pensa sobre o que se passa agora.

"Tenho ainda um enorme carinho por Angola, não conheço estes jovens que estão presos e sei que os meus amigos angolanos se vão zangar comigo, mas é um caso de consciência."


Na carta divulgada, Luís Cília sublinha: "Seja em que forma musical ou ritmo se exprime a rebeldia dos jovens deve ser sempre ouvida pelos 'mais velhos'. Mesmo se, em certos momentos essa rebeldia não é compreendida. O diálogo, senhores!".

Além de Luís Cília, Sérgio Godinho e Manuel Freire, outros músicos portugueses e angolanos manifestaram anteriormente solidariedade com os 15 detidos em Angola, através das redes sociais e das vigílias já realizadas em Lisboa.

Entre eles estão, por exemplo, Batida, Pedro Abrunhosa, Capicua, Aline Frazão, Kalaf Epalanga, Mayra Andrade, Boss AC, Paulo Furtado, David Santos e Rita Redshoes.