De duas bandas de ritmos diferentes nasceu um projeto inédito, que mistura dois estilos que alguns podem considerar inconciliáveis: Rock e Kuduro. Chamam-se Throes + The Shine - justamente o nome das duas bandas anteriores - e são a prova que nem tudo tem de ser preto no branco, e que na música ainda nem tudo foi inventado.

O grupo é a última atuação do palco Clubbing do primeiro dia NOS Alive 2016, que arrancou esta quinta-feira no Passeio Marítimo de Algés, e durante a tarde os seus três membros - Diron Shine (voz) Igor Domingues (bateria) e Marco Castro (guitarra), estiveram à conversa com a TVI24 para explicar melhor o que é afinal o "Rockuduro".

A meio da digressão de promoção do novo álbum "Wanga", lançado em maio deste ano, encontrámos um grupo bem disposto e feliz por voltar a atuar em Portugal.

Como se sentem no regresso a Portugal?

ID - Sentimo-nos bem. Já não tocávamos em Portugal desde há...
DS - Três semanas. O mês passado tocámos em Guimarães.
ID - Lá fora tivemos a tocar em festivais muito grandes e agora estar em Portugal num festival como o Alive  é uma sensação ótima.
 
Que diferenças é que notam em termos do público?
 
ID - A receção é sempre boa, tanto cá em Portugal como lá fora. Acho que mesmo as pessoas que não nos conhecem ficam sempre bastante surpreendidas com o nosso tipo de som. Lá fora muitas vezes é visto como algo bastante exótico, aqui em Portugal talvez nem tanto, mas mesmo assim a receção é sempre muito boa.
 
Lá fora o que é que mais gostam? Esse efeito surpresa por serem mais exóticos? Conseguem ter um tipo de receção que aqui não têm? 
 
ID - Às vezes acho que as pessoas são um pouco apanhadas desprevenidas. Em primeiro lugar, estranham, depois a meio já estão completamente do nosso lado e acho que esse é o grande ponto que temos a nosso favor e por isso se vê também as nossas datas lá fora. Depois a música também tem um ritmo contagiante. O ritmo do kuduro é muito dançável e fazemos festa e logo por aí... estamos num altura que toda a gente, em qualquer lado do mundo, quer é sair à noite, divertir-se e é isso que nós fazemos. 
 
Em relação à atuação de hoje, vão fechar o palco clubbing. Como é que se sentem depois de todos os artistas? Alguma pressão extra? O que é que esperam do concerto de hoje?
 
DS - Temos receio, mas estamos confortáveis e confiantes que irá correr bem. Vamos dar o nosso melhor para tentar fazer a festa e contagiar toda a gente que cá estiver. 
 
Andam a promover o vosso novo álbum, como tem sido a receção?
 
MC - Acho que no geral está a ser um bocadinho melhor recebido e é natural. É um disco que nós sentimos que tem uma maturidade diferente em relação aos outros dois por um vário número de razões. Em primeiro lugar foi um álbum que nós trabalhámos muito mais. Os anteriores foram álbuns feitos em estúdio, sem grandes composições feitas antes de entrarmos lá mesmo. Este não, foi um álbum que tivemos a preparar a composição das demos, mais ou menos desde março do ano passado até ali setembro, outubro. E entramos em estúdio com o Moulinex em novembro, dezembro a gravá-lo, no início de janeiro a mostrá-lo. E só o facto de ter havido esse processo muito mais longo de composição, permitiu que nós experimentássemos mais coisas, permitiu pela primeira vez também que tivéssemos o tempo para procurarmos colaborações para o disco. Temos colaborações com artistas da Argentina, Colômbia, portugueses, do Congo. E isso trouxe todo um leque de sonoridade a este álbum que os outros dois não tinham.
 
Falou do Moulinex. Como foi trabalhar com ele? Foi o dedo do Moulinex que tornou também este trabalho melhor?
 
MC - Ajudou, claro, foi óptimo trabalhar com ele. Nós estávamos habituados dos dois álbuns anteriores a trabalhar com pessoas mais ligadas ao rock, que são muito boas a produzir álbuns desse espectro, mas que nós com este álbum queríamos deliberadamente passar para uma sonoridade diferente. Quebrar um pouco com o passado destes dois álbuns e a ligação com o Moulinex aconteceu muito naturalmente. Partilhamos a mesma agência de marcação de concertos em Portugal e ele demonstrou um interesse muito grande em trabalhar connosco e vice-versa. Achámos uma ideia excecional e a verdade é que ele deu-nos também mais liberdade para explorarmos coisas que se calhar, lá está, dentro do espectro mais rock a que estávamos habituados se calhar essas pessoas não conseguiriam trabalhá-lo tão bem connosco. E isso claro que enriqueceu bastante este álbum.
 
A vossa banda é uma junção de estilos. Para quem não vos conhece o que é que é o "Rockuduro"?
 
DS - É o tipo de música que sem dúvida deixa toda a gente a dançar.
 
ID - O "Rockuduro" foi o [título] nosso primeiro álbum e foi aí que definimos um bocado o nosso estilo, que é a junção do rock com o kuduro. Mas, nos álbuns seguintes não fazemos só isso, juntamos outro tipo de sonoridades. Temos outro tipo de influências como kumbias, música tradicional angolana, eletrónica. Acho que o "Rockuduro" foi um bocado um começo para os Throes +The Shine. Neste momento, o que nós fazemos é muito mais do que isso. Tentamos juntar estilos de música que não sejam tão óbvios na nossa música.
 
Onde é que se vai buscar inspiração para formar este género? O que é que cada um traz para a mesa na hora de trabalhar?
 
MC - Isto é uma coisa engraçada, a composição com esta banda. No início, se calhar sentia-se muito essa disparidade de géneros. Eu e o Igor trazíamos o rock, o Diron e o André, na altura, traziam o kuduro, e era aquela junção muito óbvia. Eu acho que nós nesta fase já temos um processo de composição muito mais interligado e com influências muito diferentes, porque cada um de nós cresceu. Já se passaram cinco anos da banda e cada um nós cresceu a nível de gostos e influências e de coisas que conhece.
 
ID - Mesmo às vezes, estando em tour lá fora, vamos conhecendo imensa coisa que às vezes se não tivéssemos essa tal experiência de ir para fora e de tocar em tantos festivais como tocamos, se calhar não teríamos tanta influência.
 
E o que está no horizonte para depois da promoção do álbum?
 
MC - Neste momento estamos muito focados na estrada. Temos o álbum que saiu há dois meses, basicamente, e temos uma agenda relativamente preenchida pelo menos até outubro. Até agora já demos 20 concertos este anos, temos outros 20 para já. O foco para o ano é dar continuidade a isso. Vamos ter agora três concertos, no outono, muito importantes. [Santiago de Compostela, Paris e Viena] e são festivais muito focados na promoção dentro da própria indústria musical. São festivais onde as pessoas que trabalham dentro da indústria - desde produtores, editoras, distribuidoras, agentes, etc... - vão lá ver as bandas. Há um processo de pré-seleção dos artistas que vão lá tocar - muita gente se candidata - nós tivemos a sorte de conseguir ficar nos três e lá está, acreditamos que isso para 2017 nos vai dar outra alavancagem para continuar a trabalhar este álbum e levá-lo ainda mais longe.
 
Alguma situação que tenham vivido e que vos tenha marcado?
 
ID - Que se possa contar é complicado.... (risos)
 
MC - Temos algumas situações engraçadas. Agora estou-me a lembrar daquele concerto no Eletron, em que estávamos a tocar e começamos a ver uma rapariga em topless a fazer crowdsurf no meio do concerto. 
 
ID - Temos uma situação que aconteceu há pouco tempo, que é um bocado mais triste, que é quando aconteceu o atentado em Bruxelas, no aeroporto, nós não estávamos lá mas tocávamos em Bruxelas dois dias depois. Para entrar em Bruxelas foi extremamente complicado. Uma viagem de duas horas demorou oito horas e tocámos mesmo em Molenbek. Horas antes de começar o nosso concerto estouraram lá com um carro, mesmo na rua onde nós estávamos e foi uma situação tensa.
 
MC - Foi um ambiente tenso. O concerto estava esgotado, mas um terço das pessoas não apareceu. Mesmo as pessoas que estavam a organizar tudo, sentimos que estavam muito tensas, muito tristes, mas mesmo assim tiveram a força para não cancelar. A própria produção quis que o concerto acontecesse na mesma como uma forma de demonstrar que as coisas não podiam parar por causa de coisas deste tipo de política de medo que estes grupos tentam incutir. 
 
Alguma mensagem para os vossos fãs?
 
MC - A mensagem que deixamos é venham aqui até ao palco NOS Clubbing às 2:40 da manhã fazer a festa connosco. 
 
ID - Tragam umas boas sapatilhas para dançar que vai ser preciso.
 
E para quem não vem?
 
DS - A mensagem que eu deixo é: se não tem a oportunidade de vir, se nunca ouviu o nosso disco, procure a ouvir, se nunca viu o nosso concerto, procure um dia ver o nosso concerto.
 
ID - De mente aberta, sempre. 
 
MC - Porque às vezes uma pessoa diz o que é que faz e se não ouvirem, se calhar não vão querer pesquisar. Então assim, de mente aberta, vão gostar, de certeza.