A mais longa e dura peregrinação a Fátima parte de Vinhais, no extremo Nordeste de Portugal, e vai ser perpetuada num filme de João Canijo com um elenco de onze atrizes que deram nova alma ao pequeno concelho transmontano.

Há um mês que o grupo de caras conhecidas do grande público vive na aldeia de Rio de Fornos, inspirando-se em protagonistas da vida real com tarefas banais do quotidiano como a lavoura, estar atrás do balcão e trabalhar no centro de saúde, numa escola, numa fábrica de enchidos ou no posto de turismo.

A hospitalidade transmontana transformou em familiaridade a presença de tantas artistas numa terra pequena, onde no início de março começam as filmagens de dez semanas com a perspetiva da estreia para 2017, o ano - por coincidência - do centenário das aparições de Fátima, como realçou à Lusa o realizador, que está em Vinhais a ultimar o guião.

João Canijo quis chamar-lhe “Fátima”, mas já existia um filme com o mesmo nome. “Amem” é o título que prevalece, até agora, embora o nome oficialmente registado seja “Caminhos da Alma”.

O trabalho para este filme dura há quase três e praticamente todas a s atrizes já fizeram peregrinações de pontos diferentes do país.

Canijo escolheu Vinhais por ser “a mais longa” peregrinação a Fátima e “a mais dura”. No elenco só mulheres, porque “são elas que habitualmente a fazem e porque têm mais capacidade de entrega e de dedicação do que os homens”.

Para o realizador, “não há outra maneira” de preparar o filme sem ser no local.

Como é que elas podem fazer personagens que são transmontanos sem passar algum tempo em Trás-os-Montes? É impossível”, apontou.

O realizador promete “uma peregrinação o mais realista possível de um grupo de peregrinas que fazem 430 quilómetros a pé em nove dias” e um filme que pretende “transmitir a enormidade do esforço que se faz pela fé, o esforço quase sobre-humano e diário, durante esses nove dias, que estas pessoas fazem e o enorme sofrimento por que passam em nome da fé”.

Todas elas têm motivos completamente diferentes: há quem vá pagar a promessa de alguém, há quem vá com várias promessas ou com pedidos e há quem o faça por pura e simples devoção por sentir que é um momento de encontro”

Atrás do balcão de um café de Rio de Fornos, a população já não estranha ser atendida Rita Blanco, que confidencia que o trabalho “é um bocadinho de tanga” porque o que realmente lhe interessa “é ouvir as pessoas”.

Maria José Vilaça, a Zeca, é a dona do café, a que Rita Blanco se “agarrou” para construir o personagem.

Eu não vou fazer a Zeca, será sempre o meu olhar sobre a Zeca misturado com aquilo que eu penso da vida”.

A peregrinação a Fátima era um sonho de criança que Maria José já realizou quatro vezes, apenas para “agradecer a Nossa senhora”.

É melhor do que ir ao psiquiatra, conhecemos pessoas tão diferentes, eu não faço uma bolha, vêm-se de lá tão leve”

Todas as atrizes “são muito humanas, simples todas elas”, assegurou à Lusa, indicando que “foi muito rápido que elas se adaptaram ao modo de vida” local.

A paisagem do Parque Natural de Montesinho serve também de motivação e até os rigores do frio transmontano “tornam o inverno mais bonito aqui”, na opinião da atriz Ana Bustorff que já viu cair uns flocos de neve.

Vestida a rigor, Ana corta as carnes, faz a massa e enche alheiras numa das fábricas do conhecido fumeiro de Vinhais e descreve este estágio e terras transmontanas como uma experiência “absolutamente fabulosa e fantástica”.”

Eu estou a fazer o meu dia-a-dia numa aldeia e isso muda tudo: muda a cabeça, muda a forma como nos expressamos e fazemos das coisas. Não me está a custar nada, não sinto falta de nada que possa ter em Lisboa, muito pelo contrário”

Na fábrica, as “colegas” não imaginavam que iam dar concelhos a “uma pessoa tão simpática e simples”, como sublinharam Lídia Gomes e Sandra Fernandes e com Odete Aboim a atestar que “é trabalhadora e muito prestável”.

Já parece da terra”, atirou Marisa Rodrigues, outra trabalhadora.

Uma “mulher de bico” é o personagem para o qual se prepara Márcia Breia que, no filme, será quem manda na organização da peregrinação.

Faz frequentemente “sete horas de camioneta” de Lisboa, mas sente-se bem. "É uma lufada de ar fresco para mim”, confessou, admitindo que complicado é “apanhar os termos da linguagem transmontana".

Custa um bocadinho mais porque efetivamente há toda uma música na fala que eu tenho ainda que apanhar”.

Teresa Tavares inspira-se no posto de turismo da vila onde tem, sobretudo contacto com as pessoas da terra, um sítio isolado “em que o tempo é vivido e gerido de outra maneira que nas grandes cidades”.

Toda esta gente é a alegria de Zélia Diegues, proprietária de um dos restaurantes onde fazem as refeições, que não esconde a emoção de ver gente de fora que rompe a pacatez como acontece nas feiras do fumeiro ou no verão com os emigrantes.

Estas pessoas, quando se forem embora, vão deixar saudades como os emigrantes”.