Jerónimo de Sousa defendeu em entrevista na TVI que o governo grego "não teve coragem política" e não "estava preparado" para enfrentar a situação na Grécia. 

"Obrigaram aquele povo à humilhação de joelhos, é evidente que isto não pode calar a falta de coragem política do governo grego", disse.

O secretário-geral do PCP defendeu que a situação na Grécia mostrou que o PCP "tinha razão", mas lembrou que o governo de Tsipras revelou falta de maturidade, nomeadamente quando mudou questões de "semântica", ao solicitar a alteração do nome das instituições (troika) e ao ir de "peito feito" para Bruxelas. 

"Corajoso povo grego que deu uma resposta significativa àquele sofrimento", disse também Jerónimo de Sousa que aplaudiu o referendo na Grécia, para voltar a trazer o tema à agenda pré-campanha eleitoral, no programa "Tenho uma pergunta para si", na TVI. 

O líder do PCP lembrou que até do FMI houve um avanço, ao falar da necessidade da renegociação da dívida em Atenas. E o mesmo, defendeu, devia ser feito em Portugal."É uma questão demasiado complexa, que exige estudo, preparação porque se formos apenas para a ideia do ato súbito, de que isto ou vai ou racha, isto não resulta assim, tem de ser um processo. Por isso mesmo é que o PCP tinha razão na caracterização que faz da UE. Hoje está claro ao serviço de quem está essa instituição"

Jerónimo de Sousa lembrou as "contradições" entre o FMI e a UE a propósito do problema da dívida grega e das dívidas europeias em geral. "Pela primeira vez, o FMI fala em renegociação da dívida. Nós também não falamos em perdão e [embora o] FMI não esteja a pensar como nós, a admissibilidade dessa questão é um avanço", assinalou.

À pergunta de um jovem da plateia, que questionou "como é que eu negoceio com quem quero romper", como, alegou, defende o PCP, Jerónimo de Sousa quis esclarecer que não é assim. "Quando falamos desta política de direita, quando falamos de renegociação, não queremos romper com credores. A nossa proposta tem de ser conduzida pelo estado português" e mediante uma "conferência intergovernamental".

“Nós não temos só uma divida insustentável, temos um serviço da dívida. Vamos ter que pagar este ano 10 mil milhões de euros para serviço da dívida, não é para abater a dívida. Um processo de renegociação que reduzisse o peso da divida, (…) e nós conseguiríamos a libertação de milhares de milhões de euros que podiam ir para o investimento. Os credores não querem, e nós o que queremos?” 


Uma coisa é certa, insistiu: quem considerou que "isto era uma aventura" da esquerda viu que, há meses, 74 personalidades portuguesas de diversos quadrantes ideológicos assinaram um manifesto a defender precisamente a renegociação da dívida em Portugal. 

Já no painel seguinte, questionado por Constança Cunha e Sá, sobre a posição de Portugal na negociação da crise grega, Jerónimo de Sousa lembrou que Portugal teve uma posição que "não nos honra muito, nomeadamente a posição do Governo e do Presidente da República". 
 
"Isso é uma lição, se um dia ficarmos na mesma posição, oxalá que não, sinceramente, não se verifique o comportamento de outros em relação ao nosso país".
 

Estudar e preparar saída do euro sem tabus

Jerónimo de Sousa considerou, ainda, que "criminoso" é o país não se preparar para a possibilidade "real" de saída do euro, "ou por posição própria do Governo português ou por outros".
"Devemos procurar responder a esta angustiante pergunta: temos ou não direito a um desenvolvimento soberano? Nós achamos que temos esse direito. Se existem obstáculos e constrangimentos, designadamente na questão do euro, sem nenhum ato precipitado, nem aventureiro - queria deixar isto claro -, qual é o estado de preparação que temos no nosso país tratando deste tema como tabu?"

Questionado pelos custos dessa saída, Jerónimo preferiu colocar em cima da mesa a reflexão sobre quais foram os custos que levaram o país, como disse,  "a essa aventura do euro"  que conduziu "à destruição do nosso aparelho produtivo, em que se pagou para não produzir". 

De qualquer modo, ressalvou, "é discussão muito truncada dizer ou sai ou fica". "É um ato repsonsável, eu diria responsável, estudar e prepararmos para essa saída. Sairmos e pronto é perfeitamente errado".

Também quis deixar claro outra coisa: "Eu sou daqueles que considero que apontar responsabilidades fundamentais à UE é um erro, temos aqui no país os responsáveis por esse caminho".

Jerónimo de Sousa não respondeu concretamente à pergunta sobre como é que explica que um partido que luta por uma classe mais pobre não vá muito além dos 10% nas sondagens. E também não se quis identificar com um país em específico, no que toca ao modelo seguido pelo PCP, para as pessoas terem ideia do que seria, se viesse a governar. 

"Só me revejo em Portugal. Não é uma politicamente correta. Afirmo claramente que este partido com relacionamentos internacionais diversos, mas em relação à nossa realidade, ao nosso projeto, não conseguimos encontrar um modelo".