Didier François foi mantido em cativeiro durante 10 meses pelo Estado Islâmico. Desde a libertação, em abril de 2014, foram raras as ocasiões em que falou publicamente sobre o assunto. Na passada terça-feira, o jornalista francês contou, em entrevista ao canal CNN, como conseguiu sobreviver. 

A 6 de junho de 2014, François foi raptado quando trabalhava como repórter, ao serviço da rádio Europe 1, em Aleppo, na Síria. Admite que, quando foi para o país, não tinha a noção do perigo porque, as capturas de jornalistas e funcionários de organizações não-governamentais eram ainda pouco relatadas.

«Na altura, não tínhamos conhecimento, nem nos apercebemos, do nível de risco. Além disso, na época, os membros do Estado Islâmico estavam escondidos dentro dos Jabhat al-Nusra e não se associavam à Al Qaeda».


Quando questionado sobre se os raptores falavam com os reféns, afirmou que não se importavam com religião. Em vez disso, descreviam ideologias e crenças, em conversas baseadas em questões políticas.  
 

«Não acredito que seja um movimento religioso, acho que é político e os guardas têm pontos de vista, por exemplo contra a democracia, que nada têm a ver com o Alcorão.».


Segundo o jornalista, a comunicação era pouca e o acesso ao livro sagrado dos muçulmanos era dificultado.

«"Tínhamos muita dificuldade em conseguir o Alcorão. Estávamos muito aborrecidos e eles não nos queriam emprestar nada. A certa altura, durante três dias, tivemos o Corão em francês, mas perdêmo-lo num transfer».


Enquanto esteve detido, assistiu a vários atos de violência contra quem desafiava as regras do grupo.

«Víamos alguns deles nos corredores quando eram levados para as casas-de-banho e alguns deles deitados em poças de sangue (...). Podíamos ver correntes e cordas penduradas, ou barras de ferro».


O repórter diz que as agressões físicas eram violentas, mas «não aconteciam todos os dias». Considera a pressão psicológica mais difícil de aguentar.

«É difícil o suficiente perder a liberdade e estar nas mãos de pessoas, que sabemos que matam centenas de milhar de sírios, iraquianos, líbios, tunisinos locais, e que podem por bombas nos nossos países».


Durante os 10 meses de cativeiro, François conviveu com James Foley, também jornalista, cuja execução foi a primeira de várias gravadas e publicadas na Internet pelo Estado Islâmico.

«O James era um amigo espetacular, ele nunca desistiu. Tinha um coração fantástico. Estava sempre a tentar conseguir coisas para os outros».

O jornalista recorda que numa das ocasiões, em que os raptores perguntaram aos reféns se precisavam de alguma coisa, Foley sugeriu vegetais para variar a dieta.
 

«Eles não gostavam do facto de ele não vergar, por isso era o mais espancado. Continuava a lutar e a argumentar, à sua maneira».


O ex-refém também conviveu com o executor do Estado Islâmico, conhecido como «Jihadi John» (devido ao sotaque britânico). Acredita-se que seja o responsável pela maioria das execuções divulgadas pelo grupo, incluindo a de James Foley.
 

«Dá para ver pelo vídeo que ele não é o tipo de pessoa com que se quer lidar».


Sobre a organização em si, François diz que os membros iraquianos e sírios são os mais conservadores e tradicionalistas das etnias, o que, por vezes, causa desavenças.

«Às vezes, a adaptação a jihadistas de outros países não é fácil, porque não partilham as mesmas ideias e comportamentos, e não têm os mesmos códigos. Às vezes, o ambiente torna-se muito tenso entre eles».


Considera que o líder, Abu Bakr al-Baghdadi, «tenta sempre enraizar a sua organização no conflito local» e levar os grupos étnicos a entrarem em guerra. «É assim que sobrevive e recruta», declara.

Didier François foi libertado em abril de 2014. Foi encontrado por soldados turcos, num território perto da fronteira com a Síria. Estava vendado e algemado, mas em boas condições físicas. Numa entrevista à Radio Europe 1, disse que passou «seis meses numa cave, sem ver a luz do dia, e que esteve algemado a outros reféns durante dois meses e meio».

Entre os reféns que ficaram para trás, está uma mulher norte-americana. O jornalista não quis entrar em detalhes, mas afirmou que esteve com ela em duas ocasiões. Disse ainda que ser um refém do Estado Islâmico é «suficientemente assustador» e ser do sexo feminino «não o torna mais fácil».

Segundo o jornalista, a sobrevivência era «uma questão de existir entre eles».​