Um ano após a primeira confirmação da presença do vírus Zika no Brasil, a Organização Mundial de Saúde (OMS) teme que a doença, agora considerada grave, venha a expandir-se para outras regiões e esteja para ficar.

Num longo artigo publicado a propósito do primeiro aniversário da confirmação laboratorial do aparecimento do Zika no Brasil, que se assinala no sábado, a OMS faz o historial do vírus desde que foi inicialmente identificado, em 1947, até ao presente, transfigurando-se no último ano de uma "doença obscura" numa "ameaça sanitária global".

Para a OMS, a grande questão hoje é se as populações da África e da Ásia onde o Zika já circula há anos estão imunes ao vírus que está na origem da epidemia atualmente ativa na América do Sul.

A densidade de populações de pessoas e mosquitos nas cidades da Ásia e da África tropical, assim como as suas frágeis infraestruturas, podem facilitar a propagação da epidemia se não se confirmar que existe alguma imunidade.

Alguns especialistas acreditam que a infeção anterior com uma linhagem do vírus poderá fornecer pelo menos alguma proteção contra a infeção por outra linhagem, mas na verdade "ninguém tem a certeza", escrevem os autores do texto da OMS.

Esta questão é particularmente relevante num mundo onde mais de metade da população vive em regiões infestadas pelo Aedes aegypti, o mosquito que transmite o Zika.

Os especialistas que aconselham a OMS e têm acompanhado o reaparecimento do dengue e a recente transformação do chikungunya numa ameaça internacional "são relutantes em emitir conselhos tranquilizadores sobre a possibilidade de as estirpes epidémicas do Zika se espalharem para além das Américas", pode ler-se no texto.

O caso do dengue mostra que "é pouco provável que o Zika simplesmente se extinga e desapareça", escrevem ainda os autores, lembrando que os flavivírus, a que pertence o Zika, estão bem equipados para se adaptarem às pressões ecológicas e para explorarem oportunidades de se expandirem".

As recentes descobertas sobre o vírus nas Américas não são encorajadoras, acrescenta ainda o texto da OMS, lembrando que em abril investigadores no Equador e no nordeste do Brasil detetaram Zika em macacos, o que sugere um novo ciclo de transmissão da doença que pode ajudar o vírus a persistir.

No mesmo mês, cientistas num laboratório no México detetaram o vírus do Zika numa fêmea do mosquito Aedes albopictus, uma espécie invasiva que continua a expandir-se geograficamente e já se adaptou a uma série de habitats próximos dos humanos.

Como este mosquito sobrevive ao inverno nos climas temperados, a sua capacidade de levar o Zika para outras regiões aumenta significativamente o risco de transmissão do vírus.

O mais provável, escreve a OMS, "é que o Zika, agora reclassificado como doença grave, esteja em expansão e tenha poder para ficar".

Entre 01 de janeiro de 2007 e 13 de abril de 2016, a transmissão do vírus do Zika foi documentada em 64 países e territórios, sendo que 42 deles têm estão a viver desde 2015 um primeiro surto da doença, sem evidências anteriores de circulação do vírus e com transmissão contínua através de mosquitos.

O vírus do Zika, transmitido pelo mosquito 'Aedes aegypti', provoca sintomas gripais benignos, mas está também associado a microcefalia, doença em que os bebés nascem com o crânio anormalmente pequeno e défice intelectual, assim como ao síndroma de Guillain-Barré, uma doença neurológica grave.

O Brasil, o país mais afetado pelo surto de Zika, já registou mais de um milhão e meio de casos.