Artigo originalmente publicado a 26 de maio de 2011

Nascido na cidade de Bozinovici, no leste da Bósnia, Ratko Mladic passou pela Guerra da Jugoslávia como um cruel sanguinário. A insensibilidade conduziu-o ao posto de general, ele que trepou na carreira à medida que trepava na consideração de Radovan Karadzic. Aos 49 anos tornou-se comandante do exército sérvio.

Por detrás deste oficial respeitado nos círculos internos de poder estava um homem que, dizem, cresceu traumatizado pela morte do pai: foi assassinado pelas milícias croatas pró-nazis. Ratko Mladic tinha apenas dois anos e a partir daí tornou-se um ultra-nacionalista jugoslavo, de origem sérvia, que odiava muçulmanos e croatas.

OFICIAL: Ratko Mladic preso na Sérvia

Defendia a ideia de uma «grande Sérvia», como Radovan Karadzic, e acusava os muçulmanos de serem uma ameaça. Chegou a dizer que o povo sérvio estava ameaçado de genocídio e condenado a desaparecer com a entrada do Islão na Europa. Por isso ele próprio condenou os muçulmanos da Bósnia ao mais sangrento fim.

Em 1995, no auge da Guerra da Jugoslávia, comandou o exército sérvio-bósnio que invadiu Srebrenica para o pior genocídio de que há memória. Bombardeou a cidade durante cinco dias, perante a impotência dos capacetes azuis da ONU, antes de a ocupar para matar todos os muçulmanos homens entre os 12 e os 77 anos.

As imagens de separação dos ocupantes de Srebrenica, num ritual que recordou o extermínio nazi, correram mundo: as mulheres eram levadas para território muçulmano, os homens eram mortos. Antes do genocídio de Srebrenica, na mesma Bósnia que o viu nascer, Mladic já tinha comandado os ataques a Knin e Sarajevo.

O cerco a Sarajevo durou aliás três anos e contou sempre com Mladic no comando das tropas. Sem piedade, lembrava que as fronteiras sempre foram marcadas com sangue. A fronteira que ele ambicionava para a Bósnia era clara: a integração na Grande Sérvia, num território limpo de muçulmanos ou croatas.

Mladic sentiu-se mal e o interrogatório foi interrompido

Após o fim da guerra na Bósnia, Mladic foi viver para Belgrado, na Sérvia, onde contou com o apoio de outro senhor da guerra ainda acusado de crimes contra a humanidade: Slobodan Milosevic. Com o queda em 2000 do regime, Ratko Mladic teve contra si um mandado de captura internacional e teve que se esconder.

Até essa altura levava uma vida de excessos: era visto nos melhores restaurantes, foi filmado a dançar na boda do filho e até havia fotos que o mostravam em estâncias de férias de Montenegro. De resto, recebeu uma reforma até 2005. A partir daí a vida do carrasco de milhares de muçulmanos mudou completamente.

Começou a mudar um ano antes, aliás, quando a filha se suicidou: estava em depressão devido às acusações de que o pai tinha matado milhares de pessoas. Mladic viveu então entre Belgrado, na Sérvia, e Montenegro, sempre escondido. A família chegou a pedir que fosse declarado morto para receber uma pensão.

Esta quinta-feira foi capturado: como disse Sarkozy, para olhar na cara todos os milhares de pessoas que matou.