O papa Francisco foi eleito a personalidade do ano para a revista Time. Em apenas nove meses de pontificado, Francisco parece conquistar, aos poucos, todos ou quase todos. A Time explica: «Ele não mudou as palavras, mas mudou a música». O líder da Igreja Católica assumiu uma «nova voz de consciência».

Se em tempos o mundo conheceu uma princesa do povo, parece ter chegado a vez de viver na época do Papa do Povo. A revista Time escolheu-o para personalidade do ano e não hesita em apelidá-lo de superstar dos nossos tempos.

Nancy Gibbs, gestora editorial da publicação explica que apesar de estar numa posição de grande poder, o papa Francisco apresentou-se ao mundo, desde o primeiro momento, com uma grande humildade. Foram os primeiros gestos simbólicos de Francisco, mas que iniciaram a relação de confiança que alimenta com os fiéis.

O papa eleito em Março e que desde logo pagou a sua conta do hotel, recusou sapatos vermelhos, cruz dourada e trocou o Mercedes papal por um Ford Focus, é o homem que para a Time é capaz de transportar a mudança numa igreja pouca dada a mudanças.

«Imediatamente fez a sua presença notada de uma forma que nenhum papa tinha anteriormente feito», considerou a editora da revista. «Nós nove meses no cargo, ele colocou-se no centro das conversas do nosso tempo: sobre riqueza e pobreza, equidade e justiça, transparência, modernidade, globalização, o papel da mulher, a natureza do casamento, as tentações do poder», explica.

«Num tempo em que os limites de liderança são testados em tantos lugares, surge um homem sem armas ou exército, sem reino, a não ser um punhado de terra no meio de Roma, mas com a imensa riqueza e o peso da história por trás dele, para lançar um desafio. O mundo está a ficar mais pequeno; as vozes individuais estão cada vez mais altas, a tecnologia está transformada em virtude viral, é assim que o seu púlpito ganha visibilidade até os confins da terra: quando beija o rosto de um homem desfigurado ou lava os pés de uma mulher muçulmana, a imagem ressoa muito além das fronteiras da Igreja Católica», escreve a editora da Time.

A revista assinala que em menos de um ano, o papa Francisco conseguiu algo notável: «Ele não mudou as palavras, mas mudou a música».

O foco na compaixão e a alegria com que sorri ao mundo, nem sempre presente em homens com o seu cargo, transformou Francisco em algo semelhante a uma estrela rock. A Time relembra a visita ao Rio de Janeiro onde três milhões procuraram vê-lo na praia de Copacabana, a multidão sempre entusiasmada na praça de São Pedro, as lembranças que vendem com celeridade. A igreja fala já num efeito Francisco com católicos a regressar à prática, mas não há ainda dados que o permitam suportar.

A Time considera que, alguns poderão argumentar que Francisco está a proteger o capitalismo dos seus próprios excessos, ou que está simplesmente a dizer o que outros papas disseram antes dele, que Jesus nos chama para cuidarmos dos que entre nós têm menos - A diferença é que o diz de uma forma que faz as pessoas ouvir.

O papa Francisco derrotou outros candidatos a personalidade do ano, entre os quais o ex-consultor informático Edward Snowden, que denunciou programas de vigilância de comunicações levados a cabo pelos Estados Unidos, e o Presidente da Síria, Bachar al-Assad, que lidera uma das frentes de combate da guerra civil sangrenta que se prolonga há mais de dois anos.