O papa Francisco denunciou esta segunda-feira «a tragédia incomensurável» do Holocausto e «o abismo» que constituiu para a humanidade, durante uma visita ao Yad Vashem, erguido em memória dos seis milhões de judeus assassinados nos campos de concentração nazis.

«Deus conhecia o risco da liberdade: ele sabia que o filho [o Homem] se podia perder... Mas, talvez, nem mesmo Deus fosse capaz de imaginar uma tal queda, um tal abismo», disse na «Sala da Memória», na presença do Presidente israelita, Shimon Peres, do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e de rabinos do centro.

O papa reacendeu a chama do Yad Vashem, depôs uma coroa de flores e saudou os sobreviventes do Holocausto.

«Um mal nunca antes visto sob o céu abateu-se sobre nós. Senhor, salva-nos desta monstruosidade (...) dá-nos a graça de ter vergonha do que, como homens, fomos capazes de fazer, de ter vergonha desta idolatria extrema, de ter desprezado e destruído a nossa carne», afirmou.

«Senhor, nunca mais, nunca mais», pediu Francisco, no final da sua meditação, na presença do amigo rabino, o argentino Abraham Skorka, que o acompanhou na visita.

Desde que chegou a Israel, no domingo à tarde, Francisco denunciou o Holocausto e o antissemitismo, apelando para uma educação que ultrapasse os preconceitos e ensine o diálogo.

Estas declarações foram bem recebidas em Israel, onde a memória do antijudaismo cristão da Igreja, que se referia antes do Concílio Vaticano II (1962-65) aos «judeus pérfidos», continua viva.

O papa Francisco apoia-se na declaração «Nostra Aetate» sobre a Igreja e as religiões não cristãs, e que exprime o profundo respeito dos católicos pelos judeus. João Paulo II falava dos judeus como «irmãos mais velhos» e Bento XVI como «pais na fé».

Antes, o papa realizou uma visita inesperada ao memorial das vítimas israelitas de atentados em Jerusalém, com e a pedido de Netanyahu, de acordo com a rádio militar israelita.

No domingo, Francisco fez parar o automóvel descoberto, onde viajava, junto à barreira de separação israelita, em Belém, na Cisjordânia. O papa ficou junto à barreira, um muro de betão de oito metros de altura, durante vários minutos, em oração, com a mão direita e a testa apoiada contra a parede, cheia de graffiti.

De acordo com responsáveis israelitas, citados pelo diário Yediot Aharonot, Israel lamentou que as fotografias distribuídas pelo serviço de imprensa do Vaticano não explicassem as razões da construção do muro.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, explicou no domingo à imprensa que o papa acredita que «os povos se devem encontrar, reunir-se e um muro está no seu caminho», numa «situação que não é normal».

O conselheiro político do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, Nimr Hammad, saudou um gesto significativo: «não se pode chegar à paz enquanto Israel continuar a construir muros de separação racistas entre os povos palestiniano e israelita».

A construção da barreira, batizada «muro do apartheid» pelos palestinianos e «vedação de segurança» para impedir os atentados contra Israel, começou em junho de 2002. Atualmente, estão edificados dois terços do muro que deverá atingir 712 quilómetros de comprimento quando terminado.

O Tribunal Internacional de Justiça e a assembleia-geral da ONU exigem o desmantelamento da barreira.