Monica Lewinsky quebrou o silêncio de uma década para dizer que se arrepende «profundamente» do que aconteceu há 18 anos entre ela e Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos. «É altura de «queimar a boina e enterrar o vestido azul», escreve a antiga estagiária da Casa Branca, hoje com 40 anos, num artigo na revista «Vanity Fair».

Na altura com 22 anos, Lewinsky insiste na ideia de que aquela foi uma relação consensual entre adultos. «Claro, o meu chefe aproveitou-se de mim. Mas continuarei sempre firme neste ponto: foi uma relação consensual. Qualquer «abuso» aconteceu depois, quando me tornaram bode expiatório para proteger a posição poderosa dele», diz, num artigo intitulado «Vergonha e sobrevivência», que só será divulgado na íntegra nesta quinta-feira.

Lewinsky diz que decidiu falar agora porque quer deixar de andar «em bicos de pés» com o seu passado. «Estou decidida a dar um final diferente à minha história. Decidi finalmente levantar a cabeça para poder recuperar a minha narrativa e dar um sentido ao meu passado. (Rapidamente descobrirei o que isso me vai custar).»

Conta também que mudou de ideias e decidiu falar na sequência de um caso dramático ocorrido há uns anos, o suicídio de Tyler Clementi, um jovem de 18 anos vítima de bullying por ser gay. Monica diz que ela própria teve instintos suicidas durante o escândalo e que o caso de Clementi teve muito impacto na sua mãe.

«Ela reviveu 1998, quando não podia perder-me de vista. Reviveu aquelas semanas em que ficou à cabeceira da minha cama, noite após noite, porque eu também estava suicida. «A vergonha, a humilhação e o medo que tinham sido atirados à sua filha deixavam-na com medo de que eu acabasse com a minha vida. Medo de que eu fosse literalmente humilhada até à morte.»

Foi ao recordar tudo isto que quis dar um novo sentido aos momentos por que passou. «Talvez ao partilhar a minha história, pensei, possa ajudar outros nos momentos mais difíceis de humilhação», diz, definindo como principal objetivo para o seu futuro «envolver-se em atividades em prol de vítimas de humilhação online ou assédio, para falar destes assuntos em público».

A relação de Monica e Clinton foi revelada por Linda Tripp, uma colega de Lewinski, que gravou em segredo as conversas entre ambos. Entregou as cassetes ao procurador que já investigava o presidente norte-americano por outros casos de obstrução à Justiça, e Kenneth Starr avançou com o caso.

A forma como Bill Clinton quis negar o caso, bem como o vestido azul que Monica acabou por entregar à justiça e continha ADN presidencial, ficaram para sempre no imaginário global do final do séc. XX. Clinton foi acusado de perjúrio e obstrução à justiça mas acabou por ser absolvido pelo Senado e terminou o seu mandato.