Há pânico e desentendimentos na Câmara Municipal de Nice, em França, por causa dos vídeos do atentado de 14 de julho, que provocou 84 mortos e cerca de 200 feridos, escreve esta quinta-feira o Le Figaro.

O jornal francês revela que, na quarta-feira às 11:00 (12:00 em Lisboa), a Sub-Direção de Antiterrorismo (SDAT) enviou uma requisição aos agentes que gerem a videovigilância da cidade. Citando os artigos 53 e L706-24 do Código de Processo Penal e o artigo R642-1 do Código Penal, nessa requisição pede-se aos polícias que apaguem “por completo” as 24 horas de imagens captadas por seis câmaras numeradas de videovigilância ou por quaisquer outras que tenham registado o ataque no Passeio dos Ingleses, a marginal rente ao Mediterrâneo, em Nice.

O pedido deixou siderados os agentes do centro de supervisão urbana da capital da Côte D’Azur.

“É a primeira vez que nos pedem para destruir provas”, afirma ao Le Figaro uma das fontes próximas da investigação.

“O centro de videovigilância e a cidade de Nice poderiam ser processados por causa disto e, além disso, os agentes responsáveis pelo dispositivo não têm competência para aceder a esse pedido”, acrescenta.

O pedido de destruição de imagens é tanto mais surpreendente porque a SDAT está desde a última sexta-feira a libertar servidores para guardar as 30 mil horas de videovigilância relacionadas com o atentado. Uma operação de salvaguarda de dados que vai demorar mais alguns dias.

"Não sabemos se dar uma ordem de destruição enquanto estamos a fazer um backup completo não vai colocar em causa todo o sistema," inquietam-se fontes próximas da investigação.

Contactada pelo Le Figaro, a procuradoria de Paris confirma a informação e explica por que razão foi pedido que as imagens sejam destruídas.

"Neste caso preciso, isso foi feito para impedir a divulgação indiscriminada e descontrolada dessas imagens”, assegura.

Já a polícia nacional recorda que "nas mil câmaras instaladas em Nice, 140 tinham elementos interessantes de investigação. A polícia judiciária e a procuradoria pediram, por isso, que fossem destruídas as imagens dessas 140 câmaras para evitar um uso malicioso a bem da dignidade das vítimas e para evitar a difusão dessas imagens por sites jihadistas com fins de propaganda. "

O Ministério da Justiça refere que só se pede a destruição “completa” das imagens por não ser possível proceder a uma destruição parcial desse tipo de material.

Imagens partilhadas por vários serviços

No dia seguinte ao atentado no Passeio dos Ingleses, elementos da polícia judiciária francesa fizeram em Nice um primeiro levantamento das câmaras que estiveram em contacto direto com o ataque. Esse levantamento deu origem a um primeiro relatório enviado para o ministério do Interior. Estranhamente, são essas mesmas câmaras que agora são visadas pela requisição da SDAT.

No sábado passado, o Palácio do Eliseu solicitou cópias das imagens do ataque. A autorização foi concedida pela procuradoria de Paris.

"Não choca ninguém que o Presidente tenha querido ver o ataque. Deveremos agora pedir ao Eliseu que devolva o CD que lhe foi enviado? ", pergunta um elemento da investigação ao atentado.

Seja como for, esses vídeos são partilhados por vários serviços em simultâneo, nomeadamente os da polícia municipal, da polícia judiciária e dos bombeiros.

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Uma outra polémica relacionada com o atendado de 14 de julho fez também esta quinta-feira correr tinta na imprensa francesa. Pressionado politicamente, o ministro do Interior Bernard Cazeneuve anunciou a abertura de um inquérito para apurar que dispositivo policial estava realmente montado na cidade de Nice na noite do atentado. Em causa estão prováveis falhas no dispositivo presente no local.

No sábado, o ministro Cazeneuve garantiu que o controlo policial estava bem montado e o primeiro-ministro Manuel Valls viria mesmo a secundar aquelas afirmações no Parlamento francês. Contra os argumentos invocados, o jornal Libération apresenta esta quinta-feira outros factos, que não batem certo com o esquema de proteção policial que, segundo foi dito, estaria montado em Nice, por ocasião dos festejos do 14 de julho.

O Libération fala em “mentira” da parte das autoridades francesas, e em particular do ministro do Interior, por terem garantido haver um dispositivo policial adequado no Passeio dos Ingleses. A investigação do jornal parisiense dá conta de estarem apenas dois polícias municipais no acesso à marginal por onde entrou o camião conduzido por Mohamed Lahouiaej Bouhlel. A ausência de polícia nacional no acesso ao Passeio dos Ingleses, de acordo com o jornal, não coincide com as informações apresentadas pelas autoridades após o atentado.