Falta um pouco de tudo na Venezuela. Comida, medicamentos e eletricidade. Falta segurança nas ruas e confiança num líder que prefere culpar os EUA pelos problemas do Estado. Vive-se mal no país com as maiores reservas de petróleo do mundo, a crise atingiu Caracas com força, e Maduro não deverá resistir até ao próximo ano.

Todos os dias há filas nos supermercados por todo o país para tentar conseguir alguns alimentos. Porém, quem estiver no fim da fila arrisca-se a não encontrar nada para comprar. Sucedem-se os saques às lojas, seja por necessidade ou revolta, e o mercado-negro é cada vez mais uma solução para os venezuelanos.

O governo de Nicolás Maduro não consegue importar produtos básicos como açúcar e farinha de trigo, o que está a provocar fome, tumultos e um aumento assustador do crime violento. Na semana passada, por exemplo, uma mulher que controlava uma fila num supermercado em Barquisimeto (centro do país) foi morta a tiro, alegadamente, por ter advertido uma pessoa que passou à frente de outros que já aguardavam.

A falta de energia já forçou o governo a fechar os serviços públicos três dias por semana. Os empregados do Estado que não desempenham funções essenciais só trabalham segundas e terças-feiras. Há cortes de energia de várias horas obrigatórios que deixam habitações particulares e serviços "às escuras". A raiz do problema está na seca que o país atravessa, e que deixou a barragem de Guri, responsável por 60% a 75% da energia produzida no país, com níveis de água insuficientes.

A saúde é outro setor severamente afetado. Os hospitais têm falta de medicamentos e materiais essenciais para realizar cirurgias e curativos. O New York Times escreve que há falta de antibióticos, e cita um cirurgião do hospital de Caracas que diz que há recém-nascidos a morrer devido aos cortes de energia, que desligam os respiradores. No sábado, durante horas os médicos tiveram de substituir estas máquinas para tentar manter bebés vivos, ainda assim, no final do dia quatro acabaram por morrer.

O presidente da Venezuela prolongou o estado de emergência na sexta-feira, que já vigorava desde janeiro, e que deve durar pelo menos mais 60 dias. Desta forma, o presidente pode tomar decisões sem aprovação na Assembleia, tendo Maduro anunciado desde logo que o governo vai tomar as fábricas que encerraram nos últimos meses e que o exército vai iniciar exercícios no próximo fim de semana para se preparar para qualquer cenário.

Esta última ordem em particular mostra que Maduro antevê a possibilidade de problemas severos, como mais protestos violentos ou até um golpe. Porque Maduro não é Hugo Chávez, o líder populista que substituiu em 2013, e uma recente sondagem, citada pela Reuters, avança que 70% dos venezuelanos querem que o presidente abandone o cargo até ao final de 2016.

A oposição, que passou a ter maioria desde as últimas eleições, defende um referendo para este fim, enquanto o presidente insiste que há uma conspiração interna para o depor, orquestrada nos EUA, comparando a situação política da Venezuela à do Brasil, onde a presidente Dilma Rousseff foi destituída.

A culpa da grave crise económica não pode ser atribuída apenas a Maduro, a responsabilidade tem de ser dividida com Chávez, que tornou a Venezuela praticamente dependente do petróleo que exporta. O país tem as maiores reservas do mundo, e tornaram-no o mais rico da América do Sul quando os preços negociavam em alta. Porém, a queda nos preços dos últimos meses deixaram o governo sem as receitas de outros tempos.

A poupança para uma situação destas era demasiado reduzida, e os resultados estão à vista. A economia contraiu 5,7% em 2015 e as previsões apontam para uma queda de 8% este ano. A inflação pode atingir valores na ordem dos 700%, segundo previsões do FMI, e o bolívar já vale menos de 10 cêntimos de euro.