O papa Francisco publicou esta segunda-feira uma carta dirigida a todos os católicos do mundo, condenando o crime de abuso sexual por parte de padres e o seu encobrimento e exigindo responsabilidades.

A carta do papa surge numa altura em que foram feitas novas revelações de casos de abuso sexual de menores por parte de padres dos Estados Unidos, que teriam ocorrido durante décadas.

Na carta, o papa pede perdão pela dor sofrida pelas vítimas e diz que os leigos católicos devem envolver-se em qualquer esforço para erradicar o abuso e o seu encobrimento. E criticou a cultura clerical que tem sido responsabilizada pela crise, com os líderes da Igreja mais preocupados com a sua reputação do que com a segurança das crianças.

Com vergonha e arrependimento, reconhecemos, como uma comunidade eclesial, que não estávamos onde devíamos estar, que não agimos da melhor forma, percebendo a magnitude e a gravidade dos danos que causámos a tantas vidas”, escreveu Francisco na carta, acrescentando: “Nós não protegemos os mais pequenos, nós abandonámo-los”.

A carta divulgada pelo Vaticano, de três páginas, é conhecida poucos dias antes da viagem de Francisco à Irlanda, um país católico onde a credibilidade da Igreja também foi destruída após a revelação de que padres abusaram sexualmente de crianças durante muitos anos, com o conhecimento e encobrimento dos seus superiores.

No domingo, o arcebispo de Dublin, Diarmuid Martin, já tinha pedido ao papa que falasse “abertamente e com franqueza” do passado da Igreja na Irlanda, defendendo que “não basta pedir perdão”.

O papa Francisco estará na Irlanda nos dias 25 e 26, no final de uma semana em que se celebra em Dublin o X Encontro Mundial das Famílias, 39 anos depois da visita de João Paulo II ao país, a primeira e única de um papa até hoje.

A questão dos abusos sexuais na Igreja assumiu novas dimensões após revelações, nos Estados Unidos, de que um dos cardeais de confiança do papa, o arcebispo reformado de Washington, Theodore McCarrick, terá abusado sexualmente e perseguido menores e seminaristas adultos.

Um relatório de um grande júri da Pensilvânia informou, na semana passada, que pelo menos mil crianças foram vítimas de 300 padres nos últimos 70 anos, e que gerações de bispos falharam repetidamente na tomada de medidas para proteger a comunidade e punir os violadores.

Na carta, publicada em sete línguas, Francisco refere-se ao relatório da Pensilvânia reconhecendo que nenhum esforço para pedir perdão às vítimas será suficiente e prometendo: “nunca mais”.

E disse, pensando no futuro: “nenhum esforço deve ser poupado para criar uma cultura capaz de impedir que estas situações se repitam, mas também para evitar a possibilidade de serem encobertas e perpetuadas”.