No verão de 2010, Fernando Serrulla, o antropólogo forense espanhol do Instituto de Medicina Legal da Galiza, foi chamado a dirigir-se à vala comum La Pedraja na cidade de Burgos, em Espanha, onde se deparou com os restos mortais de muitas das vítimas não identificadas da Guerra Civil de Espanha, o conflito bélico que decorreu entre 1936 e 1939, após um golpe de Estado fracassado de um setor do exército contra o governo da Segunda República espanhola, e culminou na vitória dos militares e na instauração de um regime de caráter fascista liderado pelo general Francisco Franco.

Seis anos mais tarde, Fernando Serrulla recorda ter encontrado, entre um mar de ossos, cérebros ainda conservados dentro dos crânios daqueles corpos, bem como o coração de um homem que não batia há cerca de 80 anos.

Quando cheguei à vala, fiquei perplexo. Sou antropólogo forense há 30 anos e nunca tinha visto nada assim", explicou Serrulla.

No local encontravam-se, pelo menos, 104 cadáveres de jovens rapazes e, numa vala próxima, outros 31, mortos nas imediações, em locais como Briviesca, Miranda de Ebro e Santo Domingo de la Calzada, onde eram apanhados nas ruas e presos pelos camisas azuis. Depois de presos, eram transportados em camiões dentro de "sacas" para o lugar onde seriam fuzilados.

Agora, 80 anos depois, 45 dos cérebros e um dos corações encontrados nos corpos daqueles homens mortos a tiro, permanecem, inacreditavelmente, bem conservados.

São os únicos casos conhecidos", segundo Francisco Etxeberria, o perito forense da Sociedade de Ciências Aranzadi que liderou a exumação dos corpos de La Pedraja. "Havia até dois cérebros que ainda tinham no seu interior o projétil da arma de fogo com que foram assassinados", acrescentou.

De acordo com os especialistas, a qualidade da conservação daqueles órgãos tem uma explicação científica: além de a vala ter sido escavada num terreno argiloso, impermeável e extremamente ácido, o verão de 1936 foi frio e chuvoso.

A vala era uma espécie de piscina. A maioria dos corpos tinha um levado um tiro na nuca, o que permitiu a entrada da água nos crânios. Como a água não permite o crescimento dos micróbios responsáveis pelo apodrecimento, os cérebros, devido à gordura, transformaram-se em sabão", explicou Serrulla num estudo publicado na revista científica Science and Justice.

Atualmente, os órgãos guardados numa câmara frigorífica no Hospital de Verín, na cidade de Ourense, ainda apresentam um aspeto gorduroso, ainda que tenham apenas cerca de um sexto do tamanho original.

Trata-se da maior e melhor conservada coleção de cérebros do mundo", acrescentou Serrulla.

Muitos dos cérebros ainda mantêm as suas estruturas nervosas e um deles tinha até sinais de ter tido uma hemorragia subaracnóidea, uma lesão frequente quando alguém sofre uma pancada na cabeça.

Nunca tinhamos tido evidências de lesões traumáticas anteriores à morte. Este é um indício de tortura", destacou Serrulla. 

Serrulla frisou ainda que Pablo de Greiff, um representante das Nações Unidas, tinha levado o atual Governo espanhol de Mariano Rajoy a declarar sem efeito a Lei de Amnistia de 1977 para os crimes cometidos durante a Guerra Civil espanhola e a investigar os crimes cometidos durante o franquismo em Espanha. Como tal, os cérebros da vala La Pedraja poderiam servir de prova.

De acordo com os especialistas Serrulla e Etxeberria, em Espanha há cerca de 2200 valas comuns da Guerra Civil espanhola, mas só foram exumados os corpos de 300, onde foram encontrados os restos mortais de cerca de sete mil pessoas. Com 114 mil pessoas dadas como desaparecidas, Espanha é o segundo país do mundo com mais desaparecimentos forçados, cujos corpos não foram recuperados.

Ainda assim, tendo o Governo de Rajoy acabado com as ajudas financeiras aos familiares das vítimas do franquismo, todos os custos associados à investigação dos órgãos encontrados na vala La Pedraja foram suportados pelos familiares das vítimas e pelos 150 mil euros disponibilizados pelo Governo socialista de José Luis Rodriguéz Zapatero.