Tal como os escoceses, também vários portugueses residentes na Escócia estão divididos «entre a razão e o coração» quanto ao referendo sobre a independência, mas poucos pretendem votar na quinta-feira.

«Com o coração voto sim, mas a razão diz-me para votar não», referiu à agência Lusa Jorge Sousa, empresário de construção civil e da restauração em Edimburgo.

O voto no referendo, em que será colocada a pergunta «Deve a Escócia ser um país independente», está aberto não só aos escoceses, mas também aos residentes estrangeiros de nacionalidade europeia ou da Commonwealth.

Proprietário do restaurante Tugas Amor, em Edimburgo, Jorge Sousa justificou que gostava que o país onde se instalou há 15 anos depois de passagens pela Alemanha e Áustria, fosse independente e até está convencido de que os imigrantes portugueses sairiam a ganhar, mas está mais inclinado a votar «não».

«É mais seguro porque, como está, nada está mal: não há falta de trabalho e há dinheiro. Se mudar, há receios sobre a economia e sobre como vão funcionar as fronteiras. Eu estou a pensar em abrir um segundo restaurante, mas estou à espera do resultado», confessou este lisboeta.

Também registado para votar, Luís Gomes, professor universitário em Glasgow, revê-se no mesmo dilema, disse à Lusa: «Dá vontade de reagir contra todos os sustos e o fim do mundo que os ingleses estão a dizer que vai acontecer e criar um país novo, sem guerra, de forma simples e civilizada».

Mas uma «incerteza abstrata» sobre o futuro tem atrasado a decisão sobre como votará na quinta-feira pois, vincou, "não há factos certos" sobre o que acontecerá após 18 de setembro.

O facto de a mulher de Luís Gomes ser escocesa e defender a independência não é determinante, tal como no caso de Madalena Moreira, que se mudou para Edimburgo há 14 meses com o namorado escocês.

«Ele vai votar sim, mas eu decidi não votar porque estou cá há apenas um ano e esta é uma decisão importante. Não votar também é um direito», reivindicou esta portuense, enóloga de formação.

Mesmo invocando a necessidade de refletir, Madalena disse acreditar que «o sim seria positivo para a Escócia», apesar da incerteza que rodeia este cenário.

«Como país, só tem a ganhar se sair do Reino Unido. Tem potencial para atrair investimento, tem petróleo, tem paisagem. Tem tudo para ser um país muito rico», garantiu.

João Porfírio, engenheiro civil natural de Lisboa, concorda com a imagem de que «a maior parte de quem vota sim está a usar mais o coração do que a cabeça», embora defenda uma maior autonomia para a Escócia.

No seu caso, optou por não votar, e explicou: «Acho que não tenho nada a ver com isto, mas, se pensasse que ia cá viver o resto da vida, votaria não. Acho que o Reino Unido, com uma distribuição justa de poderes, pode ser mais forte».

Igualmente há cerca de um ano na Escócia, Hugo Sousa, comissário de bordo numa companhia aérea, secundou as opiniões do amigo João Porfírio, e optou por não votar «para não prejudicar».

Porém, resumiu o sentimento positivo de todos os cinco portugueses que falaram à Lusa: «Qualquer que seja o resultado, desejo que se deem bem e a Escócia seja um país próspero economicamente», como reporta a Lusa.

Uma eventual vitória do «sim» no referendo de quinta-feira na Escócia colocaria a União Europeia perante «mais um desafio», consideram eurodeputados portugueses, que esperam uma reflexão mais profunda ao nível europeu mesmo em caso de triunfo do «não».

Também Paulo Rangel, o líder da delegação da Aliança Portugal (PSD e CDS-PP), vaticinou um «problema que a UE terá que resolver», mais premente, naturalmente em caso de vitória do «sim», mas igualmente necessário, sustentou, caso vença o «não», o que, de resto, disse acreditar que irá acontecer.

«Eu tenho alertado aqui, quer na comissão de Assuntos Constitucionais, quer no próprio PPE (Partido Popular Europeu), para um défice de reflexão sobre este assunto», como cita a Lusa.