As longas horas de trabalho e os magros salários auferidos longe de casa espelham a vida dura das empregadas domésticas em Hong Kong, mas para algumas a cidade trouxe a libertação sexual inatingível nos seus países de origem.

Para Jenny Patoc, empregada doméstica filipina de 41 anos, Hong Kong é o destino onde conheceu a sua companheira há 15 anos e onde ambas «deram o nó» não oficial numa cerimónia religiosa no ano passado, apesar de o território não reconhecer os casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

«Em Hong Kong somos livres. Podemos mostrar quem somos», disse à AFP Jenny Patoc, no distrito financeiro de Central, onde milhares de empregadas domésticas se juntam habitualmente aos domingos para passarem o dia de folga.

Embora prevaleçam as atitudes conservadoras em muitos aspetos da vida de Hong Kong, para muitos trabalhadores migrantes a antiga colónia britânica é um local mais fácil para ser homossexual, sobretudo para os que são oriundos de países como Indonésia, predominantemente muçulmano, e Filipinas, profundamente católico.

Para Marrz Balaoro, da associação de apoio às lésbicas «Filguys», assumir a sua homossexualidade foi muito mais fácil em Hong Kong do que nas Filipinas nos anos 1980. «Eu vim para Hong Kong porque queria estar por minha conta. Eu queria ser livre», disse Marrz Balaoro.

Depois de testemunhar uma lésbica a ser alvo de bullying por compatriotas filipinos em Hong Kong, Marrz Balaoro formou a associação «Filguys» para ajudar os trabalhadores migrantes do seu país a enfrentar a discriminação. A «Filguys» tem cerca de 400 membros e realiza seminários regularmente em Hong Kong.

A luta de Marrz Balaoro para ser compreendida começou na infância e continuou durante a adolescência no seu país. A ativista recordou como um médico nas Filipinas lhe receitou injeções com hormonas a pedido dos pais, na esperança de a tornarem mais feminina, aos 12 anos.

«O doutor perguntou-me como é que eu me sentia quando via um homem bonito», recordou a mulher de 56 anos, que nasceu no seio de uma família católica na província de Abra, na ilha de Luzou.

«Sem pensar muito, eu disse que o invejava e que queria ser parecido com ele. O médico pensou que eu era uma caso perdido», afirmou.

Para Marrz Balaoro, a situação melhorou no seu país natal, mas a violência contra homossexuais nas Filipinas é comum, especialmente nas áreas rurais.

Em Hong Kong as empregadas domésticas são obrigadas por lei a viver nas casas dos empregadores, pelo que a falta de espaço e privacidade é um dos obstáculos apontados para o desenvolvimento da sexualidade. «O maior problema para os trabalhadores migrantes em Hong Kong é que o seu espaço privado é muito limitado», disse Yau Xing, da Universidade de Lingnan.

Amy Sim, antropóloga da Universidade de Hong Kong, cita estudos segundo os quais 40% dos trabalhadores migrantes de Hong Kong têm relações homossexuais, impulsionados por uma mistura de solidão, curiosidade e maior liberdade para experimentar.

«O isolamento, a solidão vêm juntos com a migração. Eles precisam de conforto emocional seguido de conforto físico. As pessoas querem olhar para alguém semelhante e seguro», adiantou.

Cerca de 300.000 empregadas domésticas ganham cerca de 4.000 Hong Kong dólares (cerca de 380 euros) por mês em Hong Kong.

Na sua maioria, as empregadas são oriundas das Filipinas, Indonésia ou Tailândia, e muitas enviam dinheiro para a família nos seus países.