Do livro “Fire and Fury”, atração literária deste início de 2018 nos EUA e em muitos outros países, resultam mais confirmações do que propriamente surpresas.

Que emissários russos com ligações ao Kremlin tinham tido contatos com pessoas muito próximas de Trump durante a campanha presidencial, já se sabia (e a Comissão Mueller reforçara).

Que o Presidente dos Estados Unidos tem um perfil ultra egocêntrico e muito pouco dado à profundidade e à reflexão, também já havia detalhes preocupantes.

Que Donald Trump não sabe nem quer ouvir e se recusa a estudar ‘papers’ de conselheiros e especialistas sobre os temas mais básicos e fundamentais para a governação, idem. E que até se gaba de dispensar de ler os ‘briefings’ dos seus serviços de segurança nacional e contraterrorismo, aspas aspas.

Que não tem paciência para estar mais do que 10 ou 15 minutos focado numa reunião, mesmo que seja num encontro formal com outros chefes de Estado, também já havia relatos nesse sentido.

E que as pessoas próximas do Presidente, e que com ele têm ou tiveram que privar diariamente se referem a ele como alguém “com a maturidade emocional de um miúdo de nove anos”, “mimado e caprichoso”, entre o “impaciente e enfurecido” e, sobretudo, “mitómano e egocêntrico”, também já havia relatos.

Ainda antes do bombástico livro de Michael Wolff, no verão passado, o verniz que estalou entre Trump e o seu secretário de Estado, Rex Tillerson, decorreu de referências -- supostamente fidedignas -- de que o chefe da diplomacia americana se terá referido ao Presidente, numa reunião sobre a nova estratégia militar americana para o Afeganistão com vários elementos da área da Defesa e da Segurança Nacional, como ‘moron’ (algures entre o ‘imbecil’ e o ‘idiota’).

Que termos idênticos a esse sejam utilizados para se classificar a personalidade e o feitio de Donald Trump é algo que o livro de Wolff simplesmente veio reforçar.

O que há, então, de novo aqui?

Sobretudo ver Steve Bannon – talvez a pessoa mais decisiva na vitória eleitoral e na narrativa dos primeiros meses da Presidência Trump – a assumir um divórcio tão evidente em relação ao “modus operandi” do universo Donald.

É claro que podemos sempre perguntar: se Steve achou assim tão inaceitável aquela reunião na Trump Tower com os russos, porque ficou tanto tempo com Donald depois disso?

Numa análise mais alargada das consequências disto, os mais perversos até poderão considerar que a rutura definitiva de Trump com Bannon até dará jeito ao Presidente – que precisa de se demarcar da extrema-direita se quiser começar a pensar a sério na reeleição.

Este livro tem servido, essencialmente, para animar os talk-shows televisivos e os programas de comentário políticos das grandes networks nacionais nos EUA.

Tem sido um sucesso de vendas (e o autor até já prometeu oferecer uma “caixa de chocolates” aos advogados do Presidente, pelo favor que lhe fizeram na promoção, ao tentar proibir a sua circulação, assim uma espécie de contradição nos termos para o mercado livre e heterogéneo dos Estados Unidos).

Mas a grande questão – uma vez mais, nesta bizarra era trumpiana – é que as consequências políticas do que está descrito nesta obra (e que para qualquer outro político poderia ser comprometedor) é que ela apenas ajudará a acirrar o mundo de diferenças que existem entre quem apoia Trump e quem detesta Trump.

Mundos cada vez mais separados

Quem apoia vê nisto mais uma “prova” de que o “mainstream media” e as “elites supostamente privilegiadas” fazem tudo para desdenhar o Presidente.

Quem detesta Trump já sabia há muito, e com este livro passou a ter ainda mais razões, para concluir que isto não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Que deste livro possa sair um movimento claro para um possível 'impeachment' de Trump? Esqueçam.

Por muito pior, a maioria republicana no Congresso primeiro mostrou alguns sinais de indignação ou impaciência mas rapidamente se acobardou.

E a oposição democrata ainda não se conseguiu organizar suficientemente para liderar uma destituição do Presidente (precisa de mais gás judicial da Comissão Mueller e de uma clara vitória eleioral nas midterms de novembro).

E, apesar de tudo, ele sobe…

Enquanto isto, e no meio destes dias conturbados e ruidosos na América, a taxa de aprovação presidencial de Trump, que durante meses se afundou nos 30 e poucos por cento, subiu algures entre 5 a 8 pontos nas últimas semanas do ano 2017 e nos primeiros dias de 2018.

Explicações?

Talvez os segmentos que saem beneficiados com a Reforma Fiscal (e mais aqueles que acham que saem e que daqui a uns anos vão ter uma amarga surpresa); os dados do final de ano da economia americana, que apontam para um desemprego quase residual (4.1%, mantendo a rota de descida iniciado no segundo ano do primeiro mandato presidencial de Obama) e para uma taxa de crescimento da economia dos EUA próxima dos 3% (também mantendo a rota positiva dos anos Obama).

Nesses pontos, volta a ocorrer esse ‘double standard’: durante a presidência Obama, os factos mostravam que a Economia estava no bom caminho – mas cada vez mais americanos achavam o contrário e queriam mais.

Trump dizia na altura que os números do emprego e do crescimento económico eram 'martelados'.

Agora rejubila com os mesmos indicadores (saídos dos mesmos institutos) e consegue capitalizá-los politicamente. A esquizofrenia política continua a reinar em Washington DC. E continua a haver quem goste.

Um “génio estável” a perturbar a imagem da Casa Branca

A forma como Trump está a reagir às acusações de Steve Bannon – seu antigo conselheiro-chefe e “ideólogo” da via de “destruição do sistema político bipartidário” – diz tudo sobre o temperamento e o caráter do atual Presidente dos Estados Unidos.

Bannon não foi um simples assessor de Trump: foi o CEO da parte decisiva da sua campanha presidencial e sustentou a argumentação política e ideológica dos primeiros meses desta bizarra administração.

Boa parte da construção do discurso de posse, a 20 de janeiro, é criação de Steve Bannon: a insistência no “America First”, a aposta no “Make America Great Again”, a utilização da expressão disruptiva e afrontosa da grande tradição americana “American Carnage” (carnificina americana), em plena investidura de um novo presidente.

Steve empurrou Donald para as margens extremistas que colocaram o Presidente dos EUA próximo de correntes racistas, supremacistas e inaceitáveis para a “dualidade” democratas/republicanos.

Foi a ponte que Trump precisava para o Tea Party (movimento que nas primárias olhava com desconfiança para o milionário nova-iorquino, com uma vida pessoal muito pouco ‘conservadora’ e uma proximidade ao poder financeiro que pouco dizia à América profunda).

Com Bannon, Trump criou a narrativa populista, que junta os valores tradicionais da “velha América” com um lado “revolucionário” de “destruição completa dos hábitos corrompidos do pântano de Washington”.

Junção explosiva e perturbadoramente vencedora.

Em agosto passado, depois de sete meses de total falhanço político e legislativo da Administração Trump, e dias depois do momento conturbado de Charlottesville (em que o Presidente seguiu a via radical de Bannon de não se distanciar claramente dos supremacistas brancos), Donald despediu Bannon e reforçou poderes internos na Casa Branca aos três grandes rivais de Steve no círculo próximo do Presidente: o general Kelly (chief of staff), o general McMaster (conselheiro de Segurança Nacional) e Jared Kushner (conselheiro sénior do Presidente, marido de Ivanka, genro de Donald). Bannon voltava ao “Breitbart News”, primeiro jurando que ia, do lado dos media, continuar a guerra trumpiana contra o “establishment”.

Mas em poucos dias se percebeu que o verniz o criador (Steve) e a criatura (Donald) haveria de rebentar.

As acusações que Bannon faz no livro de Michael Wolff fizeram desmoronar o que restava desta relação misteriosa mas politicamente vencedora durante demasiado tempo.

Steve, basicamente, foi o primeiro ‘insider’ a confirmar a “Russia Collusion” (sem a pressão judicial, tendo em conta a ‘delação premiada’ de George Papadopoulos, formalmente acusado pela Comissão Mueller).

Fala em reunião comprometedora com os russos na Trump Tower, reforça tese de Robert Mueller de “traição à pátria” de pessoas próximas da campanha Trump pelas ligações a interesses russos durante a campanha presidencial (Manafort, Gates e Papadopoulos já estão formalmente acusados de "conspiração contra a América") e entrega, literalmente, o filho do Presidente às feras. “Vão fritar o Don júnior na TV”.

Como reagiu o Presidente a isto? No estilo agressivo e de “bullying” que sempre faz quando se sente acossado.

Tratou Bannon como se ele fosse um adversário, não alguém que lhe foi tão próximo e decisivo.

Disse que “desde saiu da Casa Branca perdeu a cabeça” e está a tentar, junto da sua equipa de advogados, encontrar as mais variadas formas de impedir que o livro se dissemine pelo grande público.

Autointitulou-se “génio estável”, em mais um momento de egocentrismo tão acirrado que quase provoca vergonha alheia.

Uma reação à ditador no país da liberdade de expressão, portanto. Isto, convém nunca esquecer, não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

E o pior nem está a ser muito notado

As confusões em torno de Trump fazem-nos distrair de sinais ainda mais preocupantes, no que se refere ao desempenho desta administração americana.

Mais de metade (52%) dos postos de nomeação presidencial no Departamento de Estado dos EUA estão por preencher, quase um ano depois de Donald Trump ter tomado posse.

A situação piora se falarmos no Departamento de Energia (66%), Educação (60%), Interior (59%) ou Tesouro (54%). Não é por acaso: a atual administração americana (não só o Presidente Trump mas muito do pessoal de topo que o rodeia) tem uma visão redutora e negativa do papel do Governo.

Defende a desregulação de setores chave como o Ambiente e parte da Economia.

Na política externa, isso tem sido dramático: a qualidade da diplomacia americana, num só ano, baixou claramente. Trump prefere adiar "sine die" nomeações de embaixadores em capitais muito relevantes, optando por ligações diretas, sem qualquer noção da importância das negociações de longo prazo e pelo desenvolvimento de políticas baseadas em factos e em estratégias de mútuo consenso.

O preconceito pisou a diversidade

Quando olhamos para o primeiro ano de Trump, tendemos a focar-nos nos temas de maior impacto mediático e político a nível mundial: saída do Acordo de Paris, renúncia à Declaração de Nova Iorque, “rasgar” dos grandes acordos internacionais (TPP, TTIP, Nafta), declaração afrontosa para o mundo árabe de Jerusalém como capital de Israel, ameaça de denúncia americana do acordo nuclear iraniano.

Mas pelo meio destes temas “hot”, o Presidente dos EUA tem usado, bem mais do que se possa imaginar, o seu poder de utilizar ordens executivas unilaterais para avançar para decisões que deveriam ter muito mais discussão pública.

Num só ano, os EUA de Trump recuaram dramaticamente nos direitos das minorias – sejam os homossexuais no exército, os imigrantes sem documentos em ordem ou as empresas que apostavam em energias “limpas”.

E deitaram fora oito anos de tentativa de Obama de promover uma política fiscal mais justa para a classe média.

Trump tem governado para a Direita religiosa, para a National Riffle Association, para os banqueiros de Wall Street e para as grandes fortunas.

Caminha para menos regulação, menos proteção ao consumidor e mais condições para um capitalismo sem regras, de um suposto “mérito do sucesso”.

A tal promessa de “recuperar a economia do carvão e das minas” nos estados do Midwest é que ainda não tem muito para mostrar – mesmo assim, boa parte dos eleitores que votaram Trump nesses estados continua a acreditar que será com este Presidente que a “América se tornar grande outra vez”.

Com Trump na Casa Branca, há uma corrente minoritária, mas numerosa e muito poderosa, da sociedade americana que viu uma oportunidade única para afirmar posições extremistas, demagógicas e completamente desligadas da realidade objetiva.

O preconceito pisou a diversidade.

Inimigos do conhecimento e da ciência

Recentemente, a Administração Trump deu ordens expressas aos funcionários do CDC (Centre for Disease Control) para deixarem de escrever, em documentos oficiais, expressões como “dados científicos”, “dados objetivos” ou “conhecimento científico”.

2017 foi, por isso, o triunfo da oficialização da “pós-verdade”, em que a ideologia e o dogmatismo prevaleceram, pela via presidencial, sobre a investigação e a ciência.

É grave e não pode ser encarado como um facto consumado.