O sistema eleitoral dos Estados Unidos é muito diferente do português, não só porque tem mais fases, mas porque é, de facto, bem mais complexo. O sucessor de Barack Obama só será escolhido em novembro, mas as primárias arrancam agora. O estado do Iowa dá o tiro de partida e, embora nem seja dos maiores, pode vir a ser decisivo para o rumo que a eleição vai traçar.

Do lado dos Republicanos, Donald Trump está à frente nas sondagens e tem como principal adversário Ted Cruz, que vem ganhando força, segundo as sondagens. Entre os democratas, elas indicam que não será fácil à favorita Hillary Clinton (68 anos) derrotar o senador socialista Bernie Sanders (mais velho, 74 anos e, curiosamente, o preferido entre as jovens mulheres democratas). Ele já a tem ultrapassado em alguns Estados. 

As contas não são fáceis de fazer, quando mais de antecipar. O processo eleitoral não é direto, há primárias e caucus (palavra estranha?) a decorrer para a escolha dos candidatos dos republicanos, por um lado, e dos democratas, por outro. Para entender o que está em causa, é melhor começarmos mesmo por esmiuçar os termos.


Primárias vs. Caucus


São as duas maneiras de recolher os votos dos membros do partido para escolher apenas um candidato presidencial entre os vários daquela linha política.

As primárias são aquilo que a maioria das pessoas tradicionalmente pensam quando imaginam a votação - apresentam-se à frente da urna votar no seu delegado ou pré-candidato preferido do partido ao qual estão filiados (no caso das primárias fechadas); ou são livres de escolher nomes de qualquer partido, sem terem de estar filiados (no caso das primárias abertas). Seja como for, cada eleitor só pode participar numa única primária.

As caucus são coisa bem diferente. Na prática, funcionam com uma espécie de assembleia popular, uma reunião de várias horas que junta eleitores durante a noite para debater quais os melhores delegados que os representarão e chegar a uma conclusão. Os nomes desses delegados têm aprovação prévia dos pré-candidatos.

Ou seja, quando um eleitor escolhe um delgado no caucus ou nas primárias, está ao mesmo tempo a indicar que pré-candidato é que prefere. Por isso é que se costuma dizer que este voto serve já de bússola para a noite eleitoral decisiva.

Esta dupla campanha é feita em cada um dos estados norte-americanos, com o objetivo de obter delegados. É fácil de imaginar a correria e os quilómetros que todos eles têm feito para captar intenções de voto. O passo seguinte é a realização das eleições internas em cada partido, de onde sairão os dois candidatos oficiais – um republicano e outro democrata – à corrida à Casa Branca.


Os ‘contras’ do caucus

Participar neles é mais complicado do que votar numa eleição primária. Os votos só podem ser depositados à noite, num período específico. Para além do mais, o processo é muito mais demorado, há quem mude de ideias pelo meio e, embora não seja permitida propaganda eleitoral nessas reuniões, há situações de, digamos, cacique. Tudo isso tem implicações para a afluência.

Por outro lado, as sondagens que antecedem o caucus nem sempre são feitas através de uma amostra aleatória. Há quem as restrinja a eleitores com um histórico de participação em caucus no passado, em primárias e em eleições gerais. Isso também pode influenciar a opinião pública sobre as intenções de voto de forma enviesada.

O perfil do eleitor pode ser alterado com as candidaturas de Donald Trump e Bernie Sanders, que conquistam preferências entre o eleitorado não tradicional, que não está alinhado em partidos. Um eventual aumento da taxa de participação do eleitorado pode beneficiá-los e complicar a vida a Ted Cruz e Hillary Clinton. A questão é saber se esses apoiantes aparecem ou não nos caucus.
 

O que são e para que servem os delegados 


Cada partido coloca em jogo vários delegados e os candidatos devem obter uma maioria de delegados para poderem chegar a candidato oficial à Casa Branca. Os democratas elegem 4.049 delegados (são necessários 2025 para se ser candidato oficial), enquanto os republicanos elegem 2.380 delegados (o candidato oficial precisa de 1191). 

O número de delegados eleitos por cada Estado depende da sua população, mas, apesar disso, é o partido que decide quantos delegados estão em jogo. E aqui, a percentagem de eleitores de cada partido tem muita influência no número de delegados que o partido decide atribuir a cada Estado. Por exemplo, um Estado muito populoso, mas maioritariamente democrata, terá certamente mais peso na eleição de um candidato democrata (mais delegados), do que aquele que terá no Partido Republicano. 

Sublinhe-se que no caso do Partido Republicano em praticamente todos os Estados o candidato vencedor, nem que seja por um só voto, arrecada todos os delegados desse Estado. 

São depois os delegados eleitos por cada partido que vão votar no candidato que vai apresentar-se às presidenciais. Somam-se ainda os votos dos super-delegados, que são membros do partido, normalmente membros do comité nacional. 
 

Iowa inaugura processo, Super Terça-feira é daqui a um mês


Tradicionalmente, Iowa e New Hampshire dão o tiro de partida, o primeiro com um sistema de caucus, o segundo mediante primárias. Embora representem uma pequena fatia dos eleitores, desempenham um papel importante no processo de indicação dos favoritos, quer em termos de popularidade dos candidatos, como em capacidade de organização e dinâmica. Historicamente, há candidatos que, depois Iowa ou New Hampshire, até acabam por desistir.

Outra fase importante deste complexo processo eleitoral é a chamada Super Terça-feira, que nestas Presidenciais acontecerá a 1 de março. No total, são 24 Estados norte-americanos (Alabama, Alaska, American Samoa, Arkansas, Colorado, Geórgia, Massachusetts, Minnesota, Dakota do Norte, Oklahoma, Tennessee, Texas, Vermont, Virginia e Wyoming). Por serem muitos e de uma só vez, o candidato oficial pode ficar logo definido.

Os Estados da Califórnia, Ilinois, Nova Iorque e New Jersey são os mais importantes, porque elegem muitos delegados. Do lado do Partido Democrata estão em jogo 1.688 delegados, e do lado dos republicanos serão eleitos 1.069 delegados.

Os candidatos indicados por cada partido costumam ser oficiosamente conhecidos no final da primavera, mas oficialmente só são escolhidos na altura da convenção nacional de cada um dos dois partidos, no verão. Portanto, há ainda vários meses pela frente de suspense pré-presidencial.
 

Mais votos, vitória certa?


Pode não ser assim. E aqui entra uma outra entidade importante: o  Colégio Eleitoral, formado pelos delegados de cada estado. Estão em jogo 538 votos. Ou seja, para vencer um candidato precisa de recolher 270.

O número de representantes de cada estado corresponde à soma de deputados e senadores que possui no Congresso. Cada estado tem direito a dois senadores, independentemente do tamanho da população. Por isso, pode acontecer que haja uma diferença entre a escolha do povo e a escolha do Colégio Eleitoral. Isto quer dizer que o candidato A até pode ter recebido mais votos do que o candidato B, num estado com menos representantes do Colégio e não é líquido que seja o A a ganhar.

Mas se um deles perder num estado, fica sem direito a qualquer delegado. O vencedor fica com todos. Por exemplo, se o candidato A ganhar 60% dos votos na Califórnia, fica com todos os eleitores daquele Estado. Em 2012, Obama obteve 51% dos votos em todo o país, o que se traduziu em 61% dos votos do Colégio Eleitoral.

 

Haja dinheiro

 
Pré-campanhas de menos de três meses e uma campanha de 15 dias, como em Portugal? Nada a ver. Nos EUA, os pré-candidatos à Casa Branca começam a apalpar terreno mais de um ano antes da eleição. Ted Cruz, por exemplo, anunciou estar na corrida em março de 2015, quase 20 meses antes das eleições.

E isso, claro, custa dinheiro. Custa muito dinheiro. E uma das razões é precisamente essa: o tempo. O processo eleitoral demora muito tempo até ficar concluído, não havendo regras sobre o início, a duração e o fim das campanhas.

Tempo é dinheiro, sim, mas não os candidatos têm cinto folgado. E as contas são na ordem dos milhões de dólares. Não há limites para gastar. Os investimentos chegam até a anúncios televisivos, para além da restante propaganda, em ‘exércitos’ de campanha porque é preciso ajudar a caçar votos e, entre outros gastos, em inúmeras viagens num país enorme, com 50 Estados.  

Mais umas contas difíceis de fechar, porque ainda há dez meses pela frente. As eleições são a 8 de novembro de 2016.
 

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