O aeroporto de Istambul foi atacado na semana passada, num triplo atentado que matou 41 pessoas e feriu mais de 200. Foi o quinto ataque suicida na Turquia apenas neste ano e, de alguma forma, provou que nem todos os ataques terroristas são iguais. Pelo menos, para quem não os vive de perto.

Há um ano e meio, quando dois homens entraram na redação do jornal satírico francês “Charlie Hebdo”, em Paris, disparando a matar e roubando a vida a 12 pessoas, o mundo provavelmente não sabia o que estava para vir. Mas, desde então, aconteceram centenas de outros ataques em torno do mundo.

Em todo caso, só alguns deles mereceram atenção mediática.

Os mais sonantes foram, sem margem para dúvidas, os de ParisBruxelas e, mais recentemente, Orlando.

Se olharmos a números, em Paris morreram pelo menos 130 pessoas e centenas ficaram feridas, muitas em estado crítico. O Estado Islâmico logo reivindicou os ataques

Em Bruxelas, os atentados no metro e no aeroporto, a 22 de Março, fizeram no total 35 mortos, incluindo os três suspeitos dos ataques.

Pelo menos 49 pessoas morreram e 53 ficaram feridas no atentado terrorista numa discoteca gay em Orlando, na Florida, levado a cabo por Omar Mateen, que jurou lealdade ao Estado Islâmico.

O ataque de 28 de junho, em Istambul, ainda não foi reivindicado, mas tudo indica que também tenha a marca do ISIS.

Mas porque é que fomos todos Charlies, Paris ou Orlando e não somos igualmente Istambul ou Iémen? Alguns analistas acusam os media ocidentais de um certo racismo e atiram que, talvez, as vidas dos árabes tenham pouca importância.

Ou será, simplesmente, que tendemos a preocupar-nos mais com aqueles com quem nos identificamos melhor?

Gustavo Cardoso, investigador do CIES-IUL e diretor do Barómetro de Notícias do ISCTE-IUL, aponta vários fatores. Se, por um lado, temos a questão da proximidade, por outro há também que levar em linha de conta a "repetição constante do mesmo tipo de atentados".

O que se sucede é que quando isso acontece, por muito estranho que isto possa parecer, as pessoas incorporam esses ataques na sua lógica de rotina. Um ato de terror perturbador tem um impacto muito superior nas nossas vidas àquele que é uma repetição sistemática de atentados no mesmo local", afirmou.

O que a realidade nos diz a propósito é que a comunicação social portuguesa tende a dar maior cobertura a ataques em locais onde vivam portugueses ou que estejam fisicamente mais próximos de nós.

É óbvio que quando envolve um português essa proximidade é imediata", afirma Gustavo Cardoso.

#JeSuisCharlie, #PrayForOrlando, mas... e os outros?

E nós, enquanto utilizadores da internet e consumidores de notícias, não fazemos o mesmo?

Mesmo se analisarmos aqueles ataques que mais destaque tiveram nos media no último ano, verificamos que o público não se interessou por todos da mesma forma. Se atendermos às pesquisas via Google – e ainda que não tenhamos acesso ao volume de pesquisas, mas a um índice de 0 a 100, em que o 100 é o ponto no tempo em que a pesquisa esteve no auge – constatamos que Paris foi aquele que mais surpresa e curiosidade gerou nos internautas.

 

O que acontece é relativamente simples de perceber: quando nós temos atentados que causam uma rotura na nossa rotina, ou seja, que o nosso imaginário colocava como sendo algo que nós tivéssemos de estar atentos ou quando a surpresa se instala e se sobrepõe à rotina, isso causa uma emoção generalizada", explicou à TVI24 Gustavo Cardoso. "Se nós achamos que aquilo era algo de inusitado e impensável, nós claramente tomamos mais o partido e a dor das outras pessoas. Quando consideramos que é muito distante, que nos diz muito pouco, nós tendemos sempre a olhar obviamente com um sentimento de que não devia ter acontecido, mas não nos aproximamos muito".

Isso talvez explique porque é que há ataques que nos chocam mais do que outros, agitando as redes sociais com imagens e textos de solidariedade, enquanto que outros quase passam despercebidos.

Mas nem tudo se resume ao fator surpresa. Para o sociólogo Gustavo Cardoso, as decisões editoriais dos órgãos de comunicação social também influenciam a forma como a história é contada.

Por vezes, como aconteceu com Orlando, o caso é tomado como um ataque a um conjunto de cidadãos – neste caso à comunidade LGBT – e a narrativa é adotada numa perspetiva de “estão a fazer isto a alguém, e estas pessoas podíamos ser nós”. Isso foi a forma como a própria narrativa foi construída, independentemente de ser à comunidade LGBT ou não", explica. "Noutras vezes, a narrativa é muito mais impessoal, é “aconteceu ali, naquele local, naquele contexto”. É óbvio também que a forma como se imaterializa a história cria maior empatia ou maior distanciamento nas pessoas. Os media são quem cria a relação com aquilo que nós desconhecemos."

E nas redes sociais?

Após os ataques em Paris, o Facebook ativou uma opção que permitia aos utilizadores personalizarem a sua fotografia de perfil com a bandeira francesa. Também nessa altura, a rede social de Mark Zuckerberg estreou a ferramenta “Safety check”, que é ativada em situações de ataque e permite às pessoas nas áreas circundantes informar a família e amigos de que estão em segurança.

Desde então, estas duas ferramentas têm sido disponibilizadas em vários outros ataques, mas não todos. Em Beirut, apenas 24 horas antes dos atentados de Paris, um atentado igualmente com a assinatura do Estado Islâmico fez mais de 40 mortos, mas nem o Facebook nem a comunidade internacional deu por isso. Não com a mesma intensidade com que, um dia depois, líderes mundiais e anónimos reprovavam os ataques e pincelavam os nossos feeds com a hastag #jesuisParis.

O próprio Facebook decide o que é de importância ou não é de importância. E é obvio que tem a ver também com a representação que o Facebook tem do mundo e quais são os interesses e a proximidade que tem com determinadas culturas e determinados locais. Isso funciona efetivamente da mesma maneira: é uma decisão editorial do próprio Facebook", aponta Gustavo Cardoso.