Dezenas de milhares de crianças talibé continuam a ser obrigadas a pedir nas ruas do Senegal. Como se não bastasse, são alvo de abusos por parte de várias escolas corânicas tradicionais. A denúncia surge num relatório de várias instituições internacionais conhecido hoje.

No documento, elaborado conjuntamente pelas organizações Human Rights Watch (HRW) e Plataforma para a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos (PPDH, coligação de várias instituições senegalesas), é lembrado que o Governo senegalês aprovou legislação para combater estas práticas há um ano, mas "com pouco sucesso".

O relatório, de 40 páginas e intitulado "Continuo a Ver os Talibés a Pedir: O Fracasso do Programa Governamental para Proteger as Crianças Talibé no Senegal", analisa os êxitos e os fracassos do primeiro ano de aplicação da medida, destinada a retirar as crianças da rua.

É uma tradição muçulmana antiga: há crianças enviadas a partir dos cinco anos e que a família só volta a ver aos 15, sem imaginar que os mestres a quem as entrega vai explorá-las.

Fotojornalista da Lusa denunciou situação

Em 2015, o fotojornalista da Lusa Mário Cruz tirou uma licença sem vencimento e passou dois meses no Senegal a investigar e fotografar a vida de crianças talibés', que vivem em falsas escolas de ensino do Corão (escrituras sagradas muçulmanas) e mendigam pelas ruas.

Na altura, viajou também até à Guiné-Bissau, onde conheceu famílias de crianças escravizadas.

As fotografias captadas por Mário Cruz valeram-lhe o primeiro prémio do World Press Photo, na categoria Assuntos Contemporâneos e ainda o Prémio Estação Imagem 2016. Antes disso, a revista de distribuição internacional Newsweek publicou 20 imagens.

O fotojornalista tentou e conseguiu angariar o dinheiro necessário para publicar um livro sobre crianças escravizadas em falsas escolas corânicas do Senegal. É o projeto Talibes Modern Day SlavesA mostra itinerante percorreu a Guiné-Bissau para alertar as famílias para este grave problema.