Uma rapariga afegã, de apenas 18 anos, acha que é capaz de mudar o mundo através da música. Depois de ter conseguido escapar à guerra, aos talibãs e a um casamento forçado, Sonita Alizadeh está a tornar-se um símbolo de resistência para um nova geração, que não se identifica com as tradições do Estado Islâmico.
 

“Deixem-me sussurrar-vos as minhas palavras
Para que ninguém ouça que falo sobre a venda de raparigas.
A minha voz não deve ser ouvida porque é contra a sharia,
As mulheres devem permanecer em silêncio,
Esta é a tradição da cidade.

Eu grito para compensar uma vida inteira de mulher, em silêncio.
Eu grito por causa das feridas profundas no meu corpo.
Eu grito por um corpo exausto desta prisão,
Um corpo que se quebrou debaixo destas etiquetas que lhe puseram”.


Esta é a letra da música “Daughters for sale”, de Sonita, publicada no Youtube e que já atingiu as 75.000 visualizações. Uma crítica mordaz, onde conta a história do seu país, das tradições e onde relata a sua própria vida.

Um capítulo da sua existência de que é fácil falar, agora que vive nos EUA, e que usa como arma, nos raps que escreve, para combater as tradições do Estado Islâmico.
 

“As gerações mais velhas estão a ensinar-nos estas tradições velhas. Mas nós podemos mudá-las. Não todas. Mas algumas”.


Sonita tem apenas 18 anos, mas já viveu mais do que a idade deixa adivinhar. Cresceu em Herat, no Afeganistão, dominada pelo regime opressivo dos talibãs, onde conta ter passado fome e estar constantemente com medo. “Eu ainda os vejo nos meus sonhos”, confessou, em entrevista à CNN.

A família teve de fugir para o Irão, em busca de uma vida mais segura, longe da guerra e dos bombardeamentos. Mas nem mesmo quando tentaram escapar as coisas correram como esperado. Os talibãs só os deixaram passar a fronteira depois de lhes pagarem e, caso não o fizessem, ameaçaram raptar Sonita e a irmã.

Quando chegaram ao país vizinho, a jovem teve de limpar casas-de-banho, em vez de ir à escola. Começou a aprender a ler e a escrever e depressa se interessou por poesia, mas nenhum texto falava sobre os assuntos que queria abordar. Começou a ver televisão e encontrou as músicas de Eminem e de Yas, que a ajudaram a redigir letras e a encontrar os ritmos.

Procurou um local para começar a gravar as suas músicas, mas havia um pequeno problema: no Irão, é ilegal uma mulher cantar sem ter uma permissão especial do governo. Contudo, conseguiu encontrar alguns produtores musicais que aceitassem trabalhar com ela, em segredo.

Cada verso fala sobre a guerra no Afeganistão, as experiências das amigas casadas à força, das meninas vendidas pela própria família, “das crianças a terem crianças”.

Uma realidade proibida pela lei, que só admite casamentos a partir dos 16 anos, mas que continua a imperar no Estado Islâmico. De acordo com a ONU, cerca de 15% das raparigas afegãs casam-se antes dos 15 anos. Dos casamentos combinados, 60 a 80% são forçados.
 

“Em nome desta caneta, que é a minha arma, e da minha voz, que é a voz da minha geração,
Deixem que esta história vos conte a verdade. A história das mulheres indefesas do Afeganistão”.


Uma verdade bem presente para Sonita, que quase foi forçada a casar com um desconhecido, com apenas 16 anos. A família, que precisava de dinheiro, tentou vendê-la por 9.000 dólares.
 

“Eu perguntei-lhe ‘como podes vender a tua filha?’. Ela disse que é tradição no nosso país. As famílias são deixadas com o fardo de sustentar as noivas dos seus filhos, por isso têm de vender as filhas”.



Este foi o impulso para escrever a música “Daughters For Sale” e realizar o videoclip, onde surge com um código de barras na cabeça. O single chamou a atenção da comunidade internacional e da organização Strongheart Group, que lhe concedeu uma bolsa de estudos, nos EUA.

Partiu sozinha para a América, onde pôde finalmente começar a estudar e, recentemente, conseguiu a aprovação dos pais, que, segundo disse à CNN, estão à espera das suas novas criações. Agora, Sonita pode finalmente ir à escola e continuar o sonho de mudar o Afeganistão.
 

“O meu país precisa de uma pessoa como eu. A minha família mudou de ideias. Se consegui mudar a maneira como pensam com a minha música, então se calhar consigo mudar o mundo”.