Um, dois, três e muitos outros casos de jovens sírios desaparecidos nas manifestações de 2011 contra o presidente Bashar al-Assad começam agora a ter um desfecho conhecido. Morreram - tudo o indica, nas prisões do regime - às mãos dos mujabarat, os elementos dos serviços secretos sírios.

A Rede Síria para os Direitos Humanos, uma Organização Não-Governamental citada pelo jornal espanhol El País, - estima em 82 mil, os cidadãos desaparecidos nas celas das prisões governamentais, desde o eclodir da guerra entre várias fações e o poder central, conflitos que terão já feito meio milhão de vítimas.

Desde maio, segundo a Rede Síria, os registos centrais de Damasco emitiram 790 certidões de óbito. Entre estas estão as Yahia Charbahi, Islam Dabbas e Abdulsatar Jolani, que morreram na prisão, após serem detidos em Daraya, um subúrbio da capital.

Celas e mortes

Yahia Charbahi é um dos jovens cuja família recebeu agora a certidão de óbito. Com ele, a 6 de setembro de 2011, também Maan Charbaji e Guiath Matar foram levados em carrinhas por agentes à paisana.

Este mês, os mujabarat devolveram o corpo de Ghiath à sua família, degolado, sendo que a certidão de óbito regista "morte por falha cardíaca", conta ao El País, Eiad Charbahi, primo de Yahia, agora radicado nos Estados Unidos.

Com efeito, em maio, o regime sírio começou a registar a morte de jovens desaparecidos há largos anos. Organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch acusam o governo de Bashar al-Assad de 13 mil mortes de pessoas nas prisões.

Sobrevivente cadavérico

A pressão internacional e as negociações que envolvem o regime sírio são as razões apontadas para que o poder em Damasco pretenda agora solucionar o problema dos presos, sem culpa formada, sem julgamento, sem paradeiro conhecido pelas famílias.

Há corpos que começam a ser entregues às famílias, com improváveis causas de morte e datas de falecimento, mas há também casos de sobreviventes, libertados ainda com um fio de vida.

Nas prisões, a morte é o melhor que nos pode acontecer", contou Omar Shogre, que passou três anos e meio em 11 centros de detenção diferentes.

Vivendo agora em Estocolmo, na Suécia, Omar, citado pelo El País, refere que durante um período, esteve encarregado de transportar os corpos dos prisioneiros que sucumbiam à tortura, à doença e à fome. 

Todas as manhãs levavamos entre 30 a 40 corpos. Tínhamos de escrever-lhes um número com um marcador na testa que estava associado a outro, numa lista que os carcereiros tinham com os nomes", acrescenta Omar.

Omar conseguiu sair vivo das prisões. Com 35 quilos de peso e tuberculose aguda. Foi a 11 de junho de 2015. Vive hoje na Suécia.