A Amnistia Internacional (AI) acusa o governo sírio de ter montado um sistema de desaparecimentos forçados para ganhar dinheiro com a venda de informações no mercado negro às famílias das vítimas, que pagam milhares de dólares para tentar encontrar os seus familiares.

Segundo o relatório publicado esta quinta-feira, “Entre a prisão e a cova: desaparecimentos forçados na Síria”, pelo menos 65.000 de pessoas desapareceram “sem deixar rasto” nos últimos quatro anos, dos quais 58.000 são civis.

Os “desaparecidos” são, normalmente, mantidos em celas sobrelotadas, acrescenta a AI, em condições “terríveis”, e muitos acabam por morrer, resultado de torturas, execuções e propagação de doenças.

A receita gerada com a venda de informações às famílias, por parte de “intermediários” ou “corretores” - que recebem valores que chegam às dezenas de milhares de dólares - é já uma parte significativa da economia do país, denunciou um ativista de direitos humanos sírio à AI. Informação que foi reiterada por um advogado residente em Damasco, que disse que os subornos são “uma fonte estável de dinheiro para o regime, uma fonte de financiamento em que passaram a confiar.”
 

 “Os desaparecimentos forçados feitos pelo Governo fazem parte de um ataque friamente planeado e generalizado contra a população civil. Isto são crimes contra a humanidade e integram uma campanha cuidadosamente orquestrada para espalhar o terror e esmagar o mais pequeno sinal de dissidência no país”, acusa o diretor da Amnistia Internacional para o Médio Oriente e Norte de África, Philip Luther, citado em comunicado.


Os principais alvos destes desaparecimentos forçados são opositores do regime, manifestantes, ativistas de direitos humanos, jornalistas, médicos, trabalhadores das agências humanitárias, pessoas vistas como desleais ao governo e familiares de procurados pelas autoridades.

A AI dá os exemplos de um homem que perguntou às autoridades pelo seu irmão e “acabou detido três meses, tendo passado várias semanas em cela solitária”, de uma mulher que se deslocou a Damasco para procurar o filho e acabou detida num posto de controlo, desconhecendo-se o seu paradeiro desde essa altura, e do caso “chocante” de Rania al-Abbasi, uma dentista detida em 2013, “junto com os seis filhos” - com idades entre os dois e os 14 anos - depois do marido ter sido preso numa “rusga feita à casa da família.”

A Organização Não-Governamental (ONG) escreve que muitas famílias tiveram de vender as próprias casas, e viram-se forçadas a entregar todas as poupanças a intermediários em troca de informações, muitas vezes falsas. A AI dá o exemplo de um homem que se encontra a trabalhar na Turquia para pagar uma dívida de mais de 150 mil dólares, dinheiro que usou numa série de tentativas falhadas de descobrir o paradeiro de três irmãos.

As Nações Unidas e outros países que censuraram estes desaparecimentos são alvo de um novo apelo da ONG, que pede mais do que “palavras críticas”. A AI lembrou, ainda, que países como o Irão e a Rússia, que “apoiam o governo sírio (…) não podem lavas as mãos da imensidão de crimes contra a humanidade e crimes de guerra que estão a ser cometidos”.