As imagens de um fotojornalista sírio a correr com um menino sírio ferido nos braços e, depois, ajoelhado e visivelmente transtornado junto ao cadáver de uma outra criança, são o mais recente símbolo do horror na guerra da Síria. As fotografias foram captadas durante a tragédia que se viveu, no sábado, em Alepo, com o ataque suicida a uma caravana de autocarros que transportavam centenas de civis.

As imagens estão a dar a volta ao mundo, tal como aconteceu em 2015 com a foto do pequeno Alan Kurdi, morto numa praia da Turquia ao tentar chegar à Europa junto com a família, e como se repetiu em 2016, com a imagem de Omran Daqneesh, o menino com a cara empoeirada e ensanguentada dentro de uma ambulância após um bombardeamento em Alepo.

Desta vez, o protagonista é Abd Alkader Habak, repórter fotográfico e ativista, que não hesitou em deixar a câmara e usar as mãos para socorrer um rapaz de seis ou sete anos que encontrou no meio do caos, sozinho, ferido, a sangrar. Numa das imagens, vê-se o repórter fotográfico a carregar o menino nos braços.

Outra, captada pouco depois, mostra Abd Alkader Habak a chorar, ajoelhado no chão, junto ao cadáver de outra criança.

Abd Alkader Habak explica à estação de televisão britânica Channel 4 que estava no local a distribuir alimentos quando se deu a explosão. Pelo menos 126 pessoas, entre as quais 68 crianças, morreram quando um bombista suicida fez explodir uma camioneta armadilhada junto de 75 autocarros estacionados num subúrbio de Alepo para transportar cerca de cinco mil pessoas retiradas na sexta-feira de Foua e Kafraya.

Eu estava a alguns metros de distância quando, de repente, houve uma explosão enorme. A minha câmara caiu e eu fui projetado, com a deslocação do ar. Encontrei-a junto a uma criança que estava caída no chão, a sangrar. Corri para junto dela. Vi que era um rapaz, e que ele estava a mexer a mão. Olhei-lhe para a cara e percebi que respirava, por isso peguei nele ao colo e comecei a correr em direção às ambulâncias. Não sei o que lhe aconteceu, mas deixei-o dentro de uma ambulância e ele foi levado para um dos hospitais dentro da zona controlada pelos rebeldes”, contou Abd Alkader Habak.

Numa outra entrevista, desta vez à cadeia de televisão norte-americana CNN, Habak disse que a primeira criança de quem se aproximou estava morta e alguém gritou para que ele se afastasse da segunda, porque o local era muito perigoso e ela também já teria morrido. Mas o repórter fotográfico percebeu que o menino ainda respirava, pegou nele ao colo e correu até uma ambulância, ainda com a câmara no pescoço. A cena foi registada por um dos colegas, Muhammad Alrageb.

O menino segurava firme a minha mão e olhava para mim”, contou o fotógrafo.

Na mesma entrevista à CNN, Abd Alkader Habak referiu que a decisão de ajudar os feridos tinha sido tomada em conjunto com os outros fotógrafos presentes. Habak terá sido dos poucos que, depois das explosões, não capturou uma única imagem.

“Foi horrível, sobretudo ver crianças a gemer e a morrer em frente a mim. Decidimos, eu e os meus colegas, que íamos pôr as câmaras de lado e começar a socorrer os feridos”, explicou.

Muhammad Alrageb, o autor da fotografia, diz que primeiro também auxiliou as vítimas, mas depois começou a registar o que estava a acontecer, também por obrigação profissional.

“Quis filmar tudo para ter certeza de que as responsabilidades seriam assumidas. É um orgulho saber que estava lá um jovem jornalista a ajudar a salvar vidas”, referiu.

Depois de colocar o rapaz em segurança, Abd Alkader Habak voltou para tentar ajudar mais feridos, mas ao deparar-se com mais uma criança morta sucumbiu ao desespero. Esse momento também foi captado pela lente de um dos colegas. De joelhos, Habak chora pela criança morta que tinha ao lado, deitada de bruços no chão, e por todas as outras, explicou à CNN.

Foi uma emoção avassaladora. Aquilo que eu e os meus colegas testemunhámos foi indescritível”, rematou.