O Governo português disse hoje compreender as razões que levaram à intervenção militar desta madrugada na Síria, realizada pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, defendendo, no entanto, ser necessário evitar uma escalada do conflito.

Portugal compreende as razões e a oportunidade desta intervenção militar”, afirma o Ministério dos Negócios Estrangeiros em comunicado, acrescentando que o objetivo foi “infligir danos à estrutura de produção e distribuição de armas que são estritamente proibidas pelo direito internacional”.

De acordo com o comunicado divulgado pelo ministério de Augusto Santos Silva, o regime sírio “deve assumir plenamente as suas responsabilidades”, já que “é inaceitável o recurso a meios e formas de guerra que a humanidade não pode tolerar”.

Lembrando que o ataque desta madrugada visou a capacidade de armamento químico da Síria, o MNE refere que os bombardeamentos foram feitos por “três países amigos e aliados de Portugal, os Estados Unidos, a França e o Reino Unido”.

No entanto, afirma o ministério, é necessário “evitar qualquer escalada no conflito sírio, que gere ainda mais insegurança, instabilidade e sofrimento na região”.

O Governo relembra ainda que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e a União Europeia “têm repetidamente insistido” que “todas as partes devem mostrar abertura para investigações independentes que possam apurar e punir responsabilidades por crimes de guerra”.

Além disso, defende que todas as partes envolvidas “devem mostrar contenção no uso da força e empenhamento na procura de uma solução política, negociada e pacífica, para o conflito na Síria, que representa hoje uma muito séria ameaça à paz e segurança no mundo”.

Os EUA, a França e o Reino Unido realizaram hoje uma série de ataques com mísseis contra alvos associados à produção de armamento químico na Síria, em resposta a um alegado ataque com armas químicas na cidade de Douma, Ghouta Oriental, por parte do Governo de Bashar al-Assad.

A ofensiva consistiu em três ataques, com uma centena de mísseis, contra instalações utilizadas para produzir e armazenar armas químicas, informou o Pentágono.

O Presidente dos EUA justificou o ataque como uma resposta à “ação monstruosa” realizada pelo regime de Damasco contra a oposição e prometeu que a operação irá durar “o tempo que for necessário”.

A Rússia anunciou, entretanto, que vai pedir uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU após os ataques ocidentais contra alvos na Síria.

“A Rússia convoca uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU para discutir as ações agressivas dos Estados Unidos e seus aliados", refere Moscovo em comunicado.

Peritos da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) tinham previsto iniciar hoje uma investigação sobre o alegado ataque com armas químicas. A missão recebeu um convite do Governo sírio, sob pressão da comunidade internacional.

Marcelo apela a "uma investigação independente sobre crimes de guerra"

O Presidente da República afirmou que só a vontade de construir a paz permitirá caminhos de futuro, ao referir-se ao ataque de “amigos e aliados” à Síria e à compreensão manifestada pelo Governo português.

Memória, orgulho e coragem nos reúnem aqui hoje, Forças Armadas e Portugal, num dia em que Portugal já manifestou pelo seu Governo a compreensão para com a razão e a oportunidade da intervenção de três amigos e aliados, limitada a estruturas de produção e distribuição de armas estritamente proibidas pelo direito internacional e cujo uso é intolerável e condenável”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, Comandante Supremo das Forças Armadas.

Ao discursar nas cerimónias do Dia do Combatente, centenário da Batalha de La Lys e 82.ª romagem ao Túmulo do Soldado Desconhecido, no Mosteiro da Batalha, distrito de Leiria, o Chefe de Estado referiu-se ainda à posição do Governo liderado por António Costa, notando que, ao mesmo tempo, "apelava a uma investigação independente sobre crimes de guerra e a uma solução política negociada e pacífica, dramaticamente urgente, a pensar naquele povo martirizado”.

Numa região de que acabo de chegar e onde só o fim da escalada, escalada de violência e a vontade de construir a paz permitirão caminhos de futuro”, continuou, numa alusão à visita ao Egito que terminou na sexta-feira, acrescentando que os tempos atuais são “difíceis e, por isso, tempos que mais do que todos os outros convidam a esta evocação da memória, do orgulho e da coragem das nossas Forças Armadas”.