Uma Ucrânia democrática e sem vinculação aos blocos em confronto foi hoje sugerida como alternativa viável para a resolução da crise nesta região da Europa, durante uma conferência internacional que decorreu em Lisboa e com abordagens muito diversificadas.

A «opção dobradiça» assim designada, na sequência da «demasiada pressão» exercida pela Europa sobre Kiev e a impossibilidade de o povo ucraniano aceitar a adesão à União Europeia (UE) «através da violência» foram aspetos destacados por José Sánchez Amor, deputado ao parlamento espanhol e vice-presidente da delegação espanhola à Assembleia parlamentar da OSCE, que tem acompanhado a evolução da crise neste país do leste europeu.

«A UE deixou-se envolver-se por uma questão estratégica quando o que estava na mesa era a assinatura de um tratado de associação. A Ucrânia deve ser o que quer ser, criar as condições para que cumpra a sua vontade, se optar pela aproximação à Rússia isso tem de ser respeitado», considerou no decurso da Conferência internacional «Crise na Ucrânia: Reconfigurações que vêm do leste», e que decorreu no ISCTE ¿ Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE ¿IUL) no âmbito do Curso de especialização em políticas públicas de segurança e defesa nacional.

Num painel moderado pela investigadora do IUL Cátia Miriam Costa, onde também participaram o jornalista e investigador Carlos Santos Pereira e Duarte Costa, coronel da Academia do Exército, as diversas abordagens face ao agravamento da crise neste «país charneira», num reflexo da sua complexidade, acabaram por se revelar no decurso das exposições.

A influência exercida por Washington sobre Bruxelas no processo de aproximação de Kiev à UE, motivado por «considerações geoestratégicas», foi um dado particularmente sublinhado pelo parlamentar espanhol, que também definiu como «visão ingénua e deformada» a perceção da revolta de Maidan de novembro a fevereiro em Kiev, como uma «rebelião pró-europeia».

«Maidan começou como um protesto contra a classe política, a corrupção... A UE tem sido utilizada num jogo geoestratégico, se quiser fazê-lo terá de ser conscientemente», assinalou.

Numa referência aos interesses da Rússia neste espaço de disputa, e sem deixar de convocar o acordo para eleições presidenciais em fevereiro entre o antigo presidente Viktor Ianukovitc e Bruxelas «que não foi respeitado», Sánchez Amor precisou as ambições de Moscovo.

«A Rússia está a criar um cordão de Estados fantoches na Bielorrússia, na Abkházia, na Ossétia do sul, para a sua defesa, para a proteção do seu espaço económico».

Uma operação russa «cuidadosamente planeada», numa referência à anexação da península da Crimeia em março, foi um dos fatores registados pelo coronel Duarte Costa, com Moscovo a «saber esperar pela oportunidade» para intervir.

Ao denunciar os objetivos da Rússia nas suas regiões fronteiriças, no âmbito de uma «geopolítica de interesses» e onde o «interesse militar continua a ser determinante», o especialista em assuntos militares considerou que o principal objetivo do Presidente Putin consiste em «defender vantagens estratégicas e de segurança».

«A Rússia intervém na Ucrânia por razões geopolíticas, não aliena aliados», sustentou, numa referência ao que designou «manobra por linhas inferiores» e onde a predominância no espaço económico euroasiático surge como determinante.

A recente eleição do novo Presidente ucraniano Petro Poroshenko como «garantia de consolidação do sistema dos oligarcas», a adoção pelo novo governo de transição de Kiev de «decisões de alcance estratégico» que serão legitimadas pelo novo chefe de Estado, e as diferenças entre a questão do Kosovo e da Crimeia «à exceção da ocupação de parte de um território de um Estado soberano» foram aspetos que Santos Pereira registou na sua intervenção.