O recém-eleito presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, prometeu várias vezes durante a campanha eleitoral que acabaria com a criminalidade no país nos primeiros seis meses de mandato. Prometeu matar 100.000 traficantes nesse tempo. Prometeu acabar com o crime a tiro, isto é, matar todos os traficantes de droga que resistissem à detenção e incentivou a população a fazer o mesmo.

Esta “licença para matar” já levou ao homicídio de quase 2.000 pessoas desde 1 de julho, destas, 756 pela mão da polícia (por alegada resistência) estando as restantes 1.160 mortes ainda a serem investigadas. Mais de 10 mil traficantes foram também detidos.

Muitos destes homicídios efetuados por terceiros são da autoria de grupos de assassinos contratados, pagos para eliminar os traficantes de droga. Maria (nome fictício) é uma delas. Residente da capital, Manila, esposa e mãe entrou neste negócio quase por obrigação do marido, também ele assassino contratado, quando lhe foi sugerido que uma mulher levantaria menos suspeitas. Começou muito antes de Rodrigo Duterte ser eleito, há dois anos.

O meu primeiro trabalho foi há dois anos numa província aqui perto. Senti-me assustada e nervosa por ser a minha primeira vez”, contou à BBC. "Ordenavam ao meu marido que matasse aqueles que não pagavam o que deviam. Um dia, precisaram de uma mulher e o meu marido indicou-me para o trabalho. Quando vi o homem que devia matar, aproximei-me e disparei”.

Maria relatou a sua história ao jornalista da BBC, Jonathan Head. Contou que desde então já matou mais cinco pessoas, agora sob ordens de um agente da polícia. Esses cinco corpos que deixou para trás receberam todos um tiro na cabeça, e em contrapartida Maria recebeu 20.000 pesos, o equivalente a 385 euros, que tem de dividir com as suas colegas, outras duas mulheres. No entanto, está agora presa a este “negócio”, também ela com medo de ser morta, se quiser parar. 

Pode não parecer um valor exorbitante para um europeu, mas nas Filipinas é o suficiente para tirar alguém da pobreza, a realidade em que Maria e o marido se encontravam. É uma pequena fortuna, aliciante o suficiente para que esta mulher tenha aceitado o “trabalho”, mas agora insuficiente para que continue a arriscar vir a ser morta por algum traficante ou pelos familiares daqueles que assassinou. Na mesma tarde que falou com Jonathan Head, Maria e o marido mudaram de casa mais uma vez, podem ter sido descobertos e aquela habitação já não era segura.

Sinto-me culpada e muito nervosa. Não quero que as famílias daqueles que matei venham atrás de mim.”

Quem também muda de casa frequentemente é Roger (nome fictício), mas pelo motivo oposto. Roger é um dos milhares de alvos possíveis para grupos como o de Maria, é traficante de metanfetaminas, uma droga altamente viciante, fácil de fazer, neste momento uma das substâncias mais produzidas e traficadas nas Filipinas. Como muitos outros, entrou neste negócio para suportar o próprio vício e nunca pensou que a campanha do presidente tivesse como alvos os pequenos distribuidores como ele.

Agora, sente que tem um alvo nas costas e sente-se incapaz de confiar em quem quer que seja.

Todos os dias, todas as horas, não consigo parar de sentir medo. É cansativo e assustador ter de me esconder sempre. Nunca sabes se a pessoa mesmo à tua frente te vai denunciar ou se é um assassino. É difícil dormir à noite. Acordo a cada pequeno barulho e o pior é que não consigo confiar em ninguém (…)”, contou à BBC.

Sente-se culpado pelas vidas que destruiu como vendedor de anfetaminas, pelos esquemas que montou para satisfazer o seu próprio vício. No entanto, garante que nunca matou, nem roubou para o satisfazer.

Tal como Maria, para Roger parar também não é opção, tem medo que se decidir entregar-se à polícia seja imediatamente morto, em vez de preso.

[Pensei que o presidente] fosse atrás dos grandes [traficantes] que fabricam a droga e não dos pequenos revendedores como eu. Gostava de poder voltar atrás, mas é tarde demais para mim. Não me posso entregar, porque a polícia provavelmente mata-me.”

Roger já levou os filhos para longe deste mundo, deixou-os com a família da mulher, para que fiquem afastados da epidemia da droga e das mortes. Maria também mantém os seus filhos à parte, não longe, mas no escuro sobre a verdade do seu trabalho e do marido, pois não quer que saibam que o dinheiro que os sustenta é uma recompensa pela morte de outras pessoas. No entanto, está a ficar difícil de esconder a realidade, uma vez que o filho mais velho já questiona de onde vem tanto dinheiro.

Maria ainda tem mais um “trabalho” para fazer, o qual espera que seja o último, mas o seu patrão, o agente, já ameaçou que quem sair tem o mesmo destino que os traficantes.