O especialista mundial em economia dos media Robert Picard antecipa que o processo dos Papéis do Panamá "vai ser longo" e acredita que vai haver julgamentos, detenções e bancos em situação difícil e com multas por pagar.

Vai ser um processo muito longo. Vimos isto quando foi levantado o sigilo bancário na Suíça. [Este processo] levará três a cinco anos para que as autoridades nacionais recuperem o atraso, para serem feitos pagamentos e até para a detenção de pessoas em determinados casos", disse em entrevista à agência Lusa Robert Picard, do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, que está em Lisboa, no âmbito do mestrado em Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Robert Picard, que dá esta segunda-feira ao fim do dia uma palestra na Universidade Católica sobre os desafios dos modelos de negócio dos media e a crise no setor, reforçou: "Quando começarem as investigações oficiais, vamos ver algumas acusações. Suspeito de que vão existir bancos em situação difícil, que terão de pagar multas, indivíduos de países estrangeiros, onde estão a fazer isto ilegalmente, que vão ser levados à justiça nos seus países".

A maior investigação jornalística da história, divulgada na noite de domingo, envolve o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, na sigla inglesa), com sede em Washington, e destaca os nomes de 140 políticos de todo o mundo, entre eles 12 antigos e atuais líderes mundiais.

A partir dos Papéis do Panamá (‘Panama Papers’, em inglês), a investigação refere que milhares de empresas foram criadas em 'offshores' e paraísos fiscais para centenas de pessoas administrarem o seu património, entre eles o rei da Arábia Saudita, elementos próximos do Presidente russo, Vladimir Putin, o presidente da UEFA, Michel Platini, e a irmã do rei Juan Carlos e tia do rei Felipe VI de Espanha, Pilar de Borbón.

A investigação resulta de uma fuga de informação e juntou cerca de 11,5 milhões de documentos ligados a quase quatro décadas de atividade da empresa panamiana Mossack Fonseca, especializada na gestão de capitais e de património, com informações sobre mais de 214 mil empresas "offshore" em mais de 200 países e territórios.

Apontado com um dos maiores especialistas mundiais em economia dos media, Robert Picard falou da importância do digital e da internet na troca de informação e antecipa que ainda se "vão ver muito mais investigações de larga escala", "simplesmente devido a isso".

As pessoas falavam há anos atrás, mas não havia provas. E, de facto, alguém retirou os documentos do escritório de advogados e deu-os aos jornais para os analisarem", disse Robert Picard.

Segundo o especialista, há, "portanto, aqui uma prova".

Normalmente, o que você tem é uma suspeita, sem ter a prova, de que há gente importante a passar dinheiro nas Ilhas Caimão, mas não sabemos quem são. Sabe-se sobre essas pessoas há muito tempo, mas ter de facto as provas [...] é hoje também possível muito graças à era digital, que permite copiar muito rapidamente muitos documentos e torná-los acessíveis a jornalistas quando há atos ilícitos envolvidos", disse.

Robert Picard considera que, de certa forma, estas investigações acabam por ter um efeito preventivo, tornando mais difícil a prática de outros comportamentos, já que a partir de agora todos os serviços fiscais nacionais e outras pessoas vão questionar: "Hum, todo este dinheiro passava através do nosso país, mas onde estão os impostos que deveríamos ter recebido?".

Além disso, acrescenta: "Isto faz as pessoas pensarem: 'Ok, agora há coisas nas quais não posso confiar muito facilmente de que as vou conseguir esconder, pois é possível virem cá para fora. Nesse sentido, há uma certa prevenção. Por outro lado, se uma pessoa estiver a tentar esconder 500 milhões de dólares, vai trabalhar para descobrir um sítio para os esconder e tentar que isso aconteça".

Robert Picard falou ainda sobre a cooperação entre os jornalistas, que considera positiva, mas só possível graças à tecnologia e à internet, que permitem às pessoas "falar umas com as outras e organizar o seu trabalho com muito maior facilidade", mas sublinhou ainda que "os jornalistas aprenderam a confiar em outros jornalistas e outras organizações de media" e querem hoje cooperar.

Há cerca de 25 anos atrás isto não teria acontecido, até porque os jornais não gostavam da concorrência de outros jornais e se tivessem recebido esta informação teriam tentado mantê-la apenas num jornal. Mas hoje é cada vez mais difícil fazê-lo, em parte devido à quantidade de tempo e esforço que é necessário para entrar numa grande investigação. Quando se está perante milhões de documentos, alguém tem de os ler e descobrir sobre o que tratam", constatou.

O professor, com vasto currículo académico e que tem trabalhado como consultor para várias organizações como a Comissão Europeia e a UNESCO, afirmou que atualmente assiste-se a uma "cada vez maior cooperação ente os meios de comunicação" e que, apesar de os jornais poderem não querer cooperar com outros jornais a nível local, fazem-no com outros, de maior dimensão, situados fora do país, e nos quais confiam.