O antigo DJ da BBC, Jimmy Savile, teve acesso ilimitado a 41 hospitais do sistema nacional de saúde de Inglaterra, onde violou e abusou sexualmente, durante 24 anos, de pacientes entre os cinco e os 75 anos, revela uma série de 44 relatórios divulgada esta quinta-feira. Só no Hospital Stoke Mandeville em Aylesbury, Buckinghamshire, onde tinha um quarto próprio e acesso a todas as alas durante 24 horas por dia, o antigo apresentador da BBC atacou 60 pacientes.

De acordo com os relatórios sobre os crimes sexuais agora divulgados, Jimmy Savile até teria feito sexo com cadáveres na morgue do Leeds General Infirmary, no condado de West Yorkshire, e terá roubado olhos de vidro dos mortos para os transformar em medalhões e anéis. A antiga estrela de televisão, que morreu em Outubro de 2011, servia-se do acesso sem restrições a vários hospitais do sistema de saúde de Inglaterra para cometer os crimes.


Jimmy Savile

De acordo com o «Daily Mail», os relatórios contundentes publicados esta quinta-feira revelam que as autoridades do SNS e os responsáveis pelos hospitais «fecharam os olhos» perante as denúncias por causa da fama e da quantidade de dinheiro que Jimmy Savile conseguia angariar para caridade.

Um membro da equipa em Stoke Mandeville, que se queixou de Savile, foi «severamente repreendido» pelos chefes e a denúncia de abuso foi retirada.

Outro funcionário do hospital afirmou: «Temos de o tolerar porque ele arranja tanto dinheiro».


As autoridades do SNS inglês admitem que um pedófilo famoso como Jimmy Savile ainda hoje poderia representar um «risco para os pacientes», porque muitos hospitais ainda não têm «processos definidos para gerir a cooperação com celebridades».

De acordo com o jornal «The Guardian», as vítimas do antigo apresentador no Hospital Stoke Mandeville incluem uma menina com idade entre oito ou nove anos violada 10 vezes por Savile quando ela visitou o hospital onde parentes dela trabalhavam.


Hospital Stoke Mandeville (Foto: Reuters)

O relatório da autoria dos médicos Androulla Johnstone e Christine Dent, para o SNS inglês, descreve Jimmy Savile como «um predador oportunista que revelava um elevado grau de premeditação ao planear os ataques contra as suas vítimas».
 
Entre 1972 e 1985, as vítimas de Savile apresentaram nove queixas verbais informais e um relatório formal. A investigação revelou que nenhuma das acusações foi «levada a sério ou encaminhada para autoridades superiores».

«Por conseguinte, nenhuns dados sobre o comportamento de Savile foram reunidos ao longo dos anos e nenhuma providência foi tomada», revela o relatório.


O mesmo relatório revelou que a ação de solidariedade de Savile para reconstruir o Hospital Stoke Mandeville foi apoiada e incentivada pela então primeira-ministra Margaret Thatcher. O apresentador visitou Thatcher para lhe mostrar a planta do novo edifício e pediu um gesto de boa vontade por parte do Governo: a doação de um milhão de libras (1,4 milhões de euros).

Kate Lampard, que realizou um inquérito independente aos atos de Savile, disse que as atividades da celebridade em todo o SNS são «pouco credíveis».

«Ele usou as oportunidades que esse acesso, influência e poder lhe conferiram para cometer abusos sexuais em grande escala», afirmou a responsável, citada pelo «The Guardian».

«Parte do estatuto e da influência de Savile que lhe permitiu cometer os abusos foi o resultado de encorajamento por parte de políticos, altos funcionários e gestores do SNS», acrescentou.


Kate Lampard, investigadora independente (Foto: Reuters)


O relatório agora divulgado revelou ainda que, ao longo das últimas quatro décadas, três médicos também abusaram  sexualmente de crianças no Hospital Stoke Mandeville.

Um inquérito separado revelou que o irmão mais velho de Savile, Johnny Savile, foi objeto de sete acusações de agressão sexual por parte de mulheres - cinco das quais eram pacientes - no Hospital Springfield no sudoeste de Londres, entre 1978 e 1980.