A República Checa classificou os migrantes que chegaram à estação de comboio de Breclav, inscrevendo números na pele daquelas pessoas, o que gerou uma onda de indignação entre os defensores dos direitos humanos e grupos judeus. Tal ato só lhes fez lembrar os tempos do nazismo, quando os judeus também eram catalogados com números nos braços, nos campos de concentração. 

Na estação de Berclav, foram usadas, na terça-feira, canetas de feltro para escrever números nas mãos de mais de 200 migrantes, principalmente sírios, que viajavam da Hungria para a Alemanha. Segundo o "The New York Times", os dirigentes aparentavam não ter em mente a memória histórica da Segunda Guerra Mundial, 70 anos depois.

Entretanto, esta quinta-feira, o governo checo anunciou que abandonou tal prática e frisou que não era algo recorrente. Garantiu também que a prioridade da polícia foi, apenas, assegurar que as famílias não iriam separadas. 

A porta-voz do ministério, Lucie Novakova, enfatizou ainda, num e-mail, que as autoridades estavam sob pressão para agir rapidamente, mas que seriam postas em prática novas regra, "a fim de evitar que tal situação se repita no futuro". 

Seja como for, a forma como o país chegou a tratar os imigrantes tem sido objecto de críticas por parte de grupos de direitos humanos. A Rede de Direitos dos Migrantes, por exemplo, considera que é um espelho da má preparação dos países na União Europeia para lidar com o grande fluxo de migrantes. 

"Este incidente mostra como certos países da Europa foram apanhados completamente desprevenidos. A imagem de refugiados com rótulos traz à memória imagens históricas da Segunda Guerra Mundial. Os guardas de fronteira e da polícia devem responder às exigências das convenções internacionais para tratar os migrantes com a dignidade que merecem. Os países não podem punir as pessoas por serem migrantes"


A República Checa recebeu este ano, até ao momento, 884 pedidos de asilo, com uma reação anti-imigrante a ser cada vez mais evidente. A Alemanha deverá receber 800 mil até ao final de 2015.  

Também esta semana, e como a História tem memória, o facto de o Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, na Polónia, ter instalado chuveiros de aspersão para combater o calor à entrada, trouxe à lembrança dos visitantes os tempos dos campos de concentração.

Estes dois episódios levaram o diretor-executivo da Federação das Comunidades Judaicas na República Checa, Tomas Kraus, condenar a falta de sensibilidade e consciência histórica das autoridades dos dois países. 

Na União Europeia, e sobretudo depois de ontem um menino sírio que morreu afogado ter dado à costa numa praia turca - e de essa imagem ter corrido mundo - intensificou-se o discurso sobre a urgência em ajudar os refugiados e dar-lhes asilo nos vários países europeus. 

A Grã-Bretanha, no entanto, tem sido dos países mais reticentes. Em julho, o primeiro-ministro David Cameron referiu-se aos migrantes como "um enxame de pessoas que vêm do outro lado do Mediterrâneo".

Na Hungria, as autoridades chegaram ao ponto de enganar os refugiados, que pensavam que iam seguir viagem de comboio, mas acabaram num campo de concentração.