Uma família síria vive no aeroporto Sheremetyevo, em Moscovo, há semanas. Para o casal com quatro filhos, entre os três e os 12 anos, aquilo a que podem chamar casa, desde 10 de setembro, é um canto no terminal das partidas, uma zona antigamente reservada aos fumadores, como revela a BBC.

O calvário de Hasan Abdo Ahmad, da sua mulher, Shaho, e dos seus filhos, começou quando o serviço de estrangeiros russo confiscou os passaportes por suspeitas de falsificação de documentos, segundo o The Moscow Times. 

A família vivia no Iraque. Por isso, as crianças têm dupla nacionalidade, iraquiana e síria. Quando decidiram fugir, quatro tinham passaportes iraquianos, mas duas delas ainda não tinham o documento. Como as autoridades iraquianas não estavam a emitir passaportes, recorreram às autoridades consulares sírias, que emitiram os dois documentos que faltavam.

Voaram do Iraque para a Turquia e de Istambul para Moscovo. Ainda que esta seja uma longa escala, a família tem esperança de estar em trânsito para uma vida melhor.

Hasan trabalhava numa gráfica enquanto Shaho ficava em casa a tomar conta dos filhos. A família levava uma vida normal até os jihadistas terem entrado na cidade de Erbil, no norte do Iraque, onde viviam. Os filhos deixaram de ir à escola com medo, contam os pais ao jornal russo. Agora, fazem parte dos refugiados sírios que pediram asilo à Rússia. Segundo o The Moscow Times, até agosto, Moscovo já tinha recebido mais de 900 pedidos de asilo.

Hasan pergunta-se por que é que a Rússia ajuda a Síria a combater o Estado Islâmico, largando bombas no país, e não os ajuda a eles, cujo “crime” foi terem fugido da guerra e do Estado Islâmico.

Nem os esforços de um advogado e da família de Shaho conseguiram “libertar” a família que, ironicamente, não sai dali porque tem medo de ir presa. A irmã de Shaho Ahmad, que tem nacionalidade russa, já pagou a caução para libertá-los, mas continuavam sem papéis e aguardando uma visita do serviço de emigração quando a BBC lá foi.
À reportagem da BBC, uma das crianças queixa-se do frio, mas não perde o sorriso. Gostava de ir para Inglaterra e jogar lá futebol com os irmãos.

 A família tem sobrevivido com comida pré-cozinhada que a irmã de Shaho lhes leva, já que os restaurantes do aeroporto são muito caros. A roupa seca-se nos aparelhos de ar condicionado. O drama de uma família a lembrar o filme de Steven Spielberg, de 2004, "Terminal", com Tom Hanks.