Os gregos foram chamados às urnas para decidir se aceitavam o programa proposto pelos credores há mais de uma semana e a resposta não deixou margem para dúvidas: o “Oxi” (“Não”) venceu com mais de 60% dos votos e tomou conta das ruas de Atenas, com milhares a celebrarem os resultados do referendo. Um “Não” às propostas dos parceiros europeus que é um “Não” à austeridade, um “Sim” ao governo liderado por Alexis Tsipras e um desafio à Europa.

A vitória expressiva do “Oxi” terá surpreendido tudo e todos depois de, na última semana, todas as sondagens terem espelhado um país dividido e apontado o empate técnico entre o “Sim” e o “Não” como o resultado mais provável.

Depois de o governo ter recusado o acordo com os credores e de ter falhado o pagamento ao FMI, a Grécia foi dominada pelo caos, com bancos fechados, um apertado controlo de capitais e milhões de gregos sem acesso a pensões e salários. Mas nem o cenário de desespero, nem o risco de uma eventual saída da Zona Euro demoveram o povo grego de deixar uma mensagem clara aos líderes europeus: "Não”, “Não” há margem para mais austeridade, disseram em maioria.




Uma mensagem que Alexis Tsipras considerou ser a prova de que a “democracia não pode ser alvo de chantagem”. O primeiro-ministro grego fez uma declaração ao país, na sequência da divulgação dos resultados provisórios, onde reiterou que o governo está pronto para voltar à mesa de negociações. Contudo, salientou, a vontade do povo não pode ser ignorada. Tsipras foi mais longe e afirmou que agora só é viável um acordo que contemple a reestruturação da dívida, à luz do relatório do FMI divulgado na semana passada.

Por sua vez, o titular da pasta das Finanças, Yanis Vaorufakis, que acusou a Europa de terrorismo no sábado, afirmou que a forma como o povo grego votou é uma resposta ao ultimato da Europa.

O grito nas urnas depressa chegou a todos os cantos da Europa. Uma lição de "democracia", disseram uns, uma porta para a saída do euro, sugeriram outros.




As reações mais duras vieram da Alemanha, com o vice-chanceler e ministro da Economia alemão a arrasar Alexis Tsipras. Sigmar Gabriel considera que o chefe do executivo helénico “cortou todas as pontes” com a Europa ao recusar “as regras do jogo”, abrindo assim a porta para a "Grexit".

Também o deputado alemão Hans Michelbach, que integra o bloco conservador liderado por Angela Merkel, abriu a porta para a saída da Grécia da Zona Euro. Em declarações à Reuters, Michelback afirmou que, depois destes resultados, a Grécia escolheu ficar isolada e não é possível conceder mais ajuda externa.

Da chanceler alemã é que nem uma palavra. Sabe-se, no entanto, que Angela Merkel e François Hollande conversaram ao telefone e pediram ao presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, para convocar uma cimeira extraordinária dos líderes da Zona Euro. O pedido foi aceite e agendado para a próxima terça-feira, em Bruxelas.
 
A Grécia vai inevitavelmente estar no topo da agenda europeia esta semana. E além desta cimeira extraordinária, também haverá nova reunião do Eurogrupo.

O Presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, foi quem anunciou o encontro. Em comunicado, Dijsselbloem considerou o resultado do referendo "lamentável para o futuro da Grécia", destacando que a recuperação da economia grega implica "medidas difíceis e reformas que são inevitáveis".
   
Mas nem só de palavras duras foram feitas as reações aos resultados.

Em Itália por exemplo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paolo Gentiloni, reiterou a necessidade de se “recomeçar a procurar um acordo” para sair do “labirinto grego”. Uma opinião que também chegou de França, através do ministro da Economia, Emmanuel Macron, que defendeu um recomeço das negociações.

Outros foram mais efusivos nas reações. O líder do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias, afirmou que o vencedor do referendo foi a democracia. E até Marine Le Pen, líder do partido eurocético francês, Frente Nacional, saudou o povo grego pela "lição de democracia".



A Grécia escolheu e disse "Não", mas, e agora? O destino do país e o destino da Europa mergulhou em terreno desconhecido e imprevisível. 

Certo é que a vitória do "Não" vai pressionar ainda mais a banca grega. A pensar nisso, Yanis Vaorufakis agendou uma reunião com os banqueiros e o porta-voz do Governo grego, Gabriel Sakellaridis, anunciou que o Banco da Grécia vai pedir ainda hoje ao Banco Central Europeu, liquidez adicional através do mecanismo de empréstimos de emergência (ELA, Emergency Liquidity Assistance).