A oposição venezuelana classificou já de “fracasso” do Governo a participação nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), enquanto o executivo falou de uma adesão maciça dos venezuelanos ao ato eleitoral convocado pelo Presidente, Nicolás Maduro.

O primeiro vice-presidente do parlamento, com larga maioria da oposição, Freddy Guevara, disse aos jornalistas que o processo fracassou e constitui “uma grande derrota” para o Governo de Nicolás Maduro.

O representante da oposição disse estar seguro que o regime irá encenar uma situação que mostre adesão ao ato eleitoral.

Vai iniciar todo um processo para demonstrar com imagens dos centros eleitorais uma imagem de que em teoria tudo está em paz e está tudo feliz”, e que ao mesmo tempo apague “a repressão que exercem contra o povo”, sublinhou Freddy Guevara.

"Jornada histórica" para Maduro

As urnas abriram às seis da manhã locais e deveriam encerrar às 18:00 de Caracas, 23:00 de domingo em Lisboa, mas houve um prolongamento de mais uma hora.

Apesar disso, a oposição congregada no MUD (Mesa da Unidade Democrática) assegurou que a abstenção dominou entre os 19,5 milhões de eleitores venezuelanos.

Horas antes do fecho das urnas, o porta-voz do MUD e presidente do Parlamento, Julio Borges, afirmou que "não mais de um milhão e meio de pessoas" votou.

Ao invés, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, através de um vídeo divulgado pouco antes da hora de fecho das urnas considerou que a eleição fora uma "jornada histórica".

O vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV, no poder) anunciou na manhã de segunda-feira que a Assembleia Constituinte vai ser empossada num prazo de 24 a 72 horas.

A cerimónia vai decorrer no Palácio Federal Legislativo, sede da Assembleia Nacional, onde a oposição detém a maioria desde janeiro de 2016.

Protestos, confrontos e mortes

Os venezuelanos foram chamados a votar domingo para eleger uma nova Assembleia Constituinte, uma iniciativa do presidente Nicolás Maduro, contestada e que outros países já anunciaram não ir reconhecer, como foi o caso da vizinha Colômbia.

Maduro enfrenta há dois anos um parlamento dominado pela oposição, que tem apelado há meses aos protestos nas ruas, exigindo a demissão do presidente.

Este domingo, confrontos nas principais cidades venezuelanas causaram, pelo menos, dez mortes, que estarão a ser investigadas pela justiça do país. A oposição anunciou, contudo, que 14 pessoas perderam a vida, segundo divulga o jornal espanhol El País.

Entre os mortos, há dois adolescentes de 13 e 17 anos. Quatro pessoas morreram no estado de Tachira (oeste), na fronteira com a Colômbia, durante manifestações.

Três homens foram mortos no estado de Merida (oeste, um no estado de Lara (norte), um no estado de Zulia (norte) e um dirigente da oposição no estado de Sucre (norte), segundo o o balanço do Ministério Público venezuelano, já era madrugada em Lisboa.

De acordo com meios de comunicação venezuelanos, que têm seguido o dia eleitoral e de protestos em várias cidades, os mortos terão ocorrido entre opositores que se manifestam nas ruas, mas também entre apoiantes do presidente Nicolás Maduro, incluindo candidatos à Assembleia Constituinte.

Eleições sem reconhecimento

Além da oposição venezuelana congregada no MUD, que tem patrocinado os protestos de há vários meses nas ruas das principais cidades, a eleição de uma nova Assembleia Constituinte convocada por Nicolás Maduro tem sido amplamente criticada por diversos países.

Primeiro, foi a vizinha Colômbia a anunciar que não iria reconhecer os resultados da eleição. Já no domingo, Argentina, Brasil e México, três da maiores economia da América Latina, juntaram as suas reservas aos colombianos.

A União Europeia, através da Alta Representante de Política Externa, a italiana Federica Mogherini, alertou no seu blog para o risco de uma escalada de violência na Venezuela.

Já da parte dos Estados Unidos, com quem o poder venezuelano de Maduro mantém um braço de ferro há muito, a embaixadora nas Nações Unidas, Nikki Haley, considerou que as "eleições são uma vergonha e mais um passo em direção à ditadura".

Não aceitaremos um governo venezuelano ilegal. O povo da Venezuela e a democracia irão prevalecer", escreveu a mebaixadora através da rede Twitter.

Os Estados Unidos prometeram "medidas fortes e rápidas" dirigidas ao governo de Maduro.

Manifestações vão continuar

A oposição venezuelana apelou para a realização de manifestações hoje e na quarta-feira, contra a Assembleia Constituine do Presidente Nicolas Maduro, eleita no domingo, dia marcado por uma série de episódios de violência. O país está a ferro e fogo e, só ontem, pelo menos dez pessoas morreram.

"Não reconhecemos este processo fraudulento, para nós é nulo, não existe", declarou, no domingo, o líder da oposição Henrique Capriles.

Capriles pediu aos venezuelanos que protestem hoje contra aquilo que considerou "um massacre" e "uma fraude eleitoral".

Todo es pirata,fraudulento!Al carnet del esperpento le salió "que no existe la persona" y quitaron la cámara!FRAUDE! #30Jul pic.twitter.com/nvAaIq53Jv

— Henrique Capriles R. (@hcapriles) 30 de julho de 2017