O bispo anglicano português José Jorge da Pina Cabral considerou que a sagração da primeira bispa da igreja anglicana inglesa, Libby Lane, na segunda-feira «vai abrir um novo caminho», mais próximo da sociedade, na Igreja de Inglaterra.

Por seu turno, o teólogo católico português padre Anselmo Borges, defende que a ordenação de mulheres na Igreja católica será inevitável, num comentário sobre a sagração de Libby Lane, na catedral de York.

«Não sei quando, mas que vamos ver, vamos» a ordenação de mulheres na Igreja católica, disse à Agência Lusa Anselmo Borges, também professor na universidade de Coimbra e ensaísta.

«Tem de ser, porque a Igreja católica, aqui no ocidente, é a última grande instituição que continua machista e que discrimina as mulheres. Ora, Jesus não discriminou as mulheres (...) mais tarde ou mais cedo, esta discriminação na Igreja terá de acabar. Acho necessário para não haver discriminação, para seguirmos a vontade de Jesus, que não discriminou», afirmou.

Anselmo Borges lembrou as declarações polémicas do cardeal português José Policarpo, que numa entrevista afirmou não ver razões teológicas para a não-ordenação das mulheres, e do cardeal italiano Carlo Maria Martini, morto em agosto de 2012, em defesa da ordenação das mulheres.

A primeira bispa da Igreja de Inglaterra vai exercer o seu ministério em Stockport, uma cidade desindustrializada, na zona de Manchester (noroeste de Inglaterra).

Esta designação, anunciada em dezembro, põe fim a séculos de domínio masculino na hierarquia clerical e acontece 20 anos depois das primeiras ordenações de mulheres padres, que representam atualmente, em Inglaterra, perto de um terço do clero.

Libby Lane tem 48 anos, dois filhos e é casada com um padre.

O anglicanismo, a terceira maior comunhão a nível mundial, com 13,4 milhões de membros, nasceu de uma rutura com a Igreja católica no século XVI, depois da recusa do papa Clemente VII de conceder ao rei Henrique VIII a anulação do casamento com Catarina de Aragão.

Numa «sociedade descristianizada, como a inglesa, a Igreja teve em conta a sua missão na sociedade atual e todo o contributo, experiência e sensibilidade das mulheres, para a ajudarem a aproximar-se das pessoas e também dos seus problemas mais exigentes», sublinhou Pina Cabral.

A «sagração é o resultado de um longo processo de diálogo, de aprofundamento teológico», disse o líder da Igreja Lusitana, o ramo português da comunhão anglicana.

Em julho de 2014, no sínodo da Igreja de Inglaterra, foi aprovada a moção que permitiu a sagração de mulheres ao episcopado. A igreja inglesa permite, desde 1994, a ordenação de mulheres ao presbiterado.

A nomeação de bispas não é uma novidade entre os anglicanos, mas é «significativo que a igreja mãe (a Igreja de Inglaterra) dê agora este passo, o que naturalmente terá outro tipo de impacto ao nível do diálogo ecuménico com as outras igrejas, principalmente com as igrejas que não aceitam a ordenação de mulheres, como a Igreja Católica Romana e as ortodoxas», explicou.

Sobre esta questão, o bispo Pina Cabral citou a carta que o arcebispo de Cantuária, enquanto líder da Igreja de Inglaterra e também chefe espiritual da comunhão anglicana, escreveu aos líderes ecuménicos a defender que «esta exigência acrescida no diálogo, não impeça aquilo que deve ser um caminhar conjunto das igrejas».

Justin Welby reafirmou a vontade da Igreja de Inglaterra «de continuar todo um diálogo teológico, aberto e franco, com os parceiros ecuménicos, como a Igreja Católica Romana e as igrejas ortodoxas», nomeadamente «tendo em conta as exigências que as situações atuais colocam às igrejas e ao mundo», como «os fundamentalismos, a violência, a pobreza, a miséria», que exigem a «união entre as igrejas», cita a Lusa.